Ir a uma discoteca depois dos trinta

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discotecaIr a uma discoteca depois dos trinta começa a ser uma experiência estranha. Para além de sentir que acabei de entrar numa escola secundária na qual sou o professor, o que mais me faz sentir desajustado são as músicas. Não estou a falar do estilo, mas sim das letras.

A forma alegre com que o Taio Cruz canta “I got a hangover, whoa!” já não faz sentido na minha idade. Não há razão para entusiasmo quando já sei que a ressaca vai durar dois dias! A ressaca não merece uma música de homenagem na qual ainda diz “I got an empty cup pour me some more”. Quanto muito enche-me um copo com água que é para ver se isto amaina e amanhã não tenho a cabeça como se estivesse a ser atacada por abelhas com ferrões em brasa.

Quando passa o “Save the world” dos Sweedish House Mafia tudo me faz sentir velho. Mal começa, dizem “We never sleep, never get tired”. Mentira. Quando não durmo pelo menos oito horas para além de cansado fico rabugento. Depois, no refrão, têm a lata de perguntar “Who's gonna save the world tonight?”. Desvio logo o olhar como quando fazia quando as minhas professoras perguntavam quem queria ir ao quadro. Peço imensa desculpa, mas não será possível ajudar a salvar o mundo a esta hora da madrugada. Isso é coisa para demorar e eu gostava de chegar a casa ainda com o sol a fazer oó. Se der para esperar até amanhã de manhã, por volta do meio-dia, vá, ainda posso dar uma ajudinha, agora, assim, de repente, a esta hora, perdoem-me o egoísmo, mas não vai dar. “Who's gonna bring you back to life?” perguntam, de seguida. Mais uma vez, finjo que não é comigo. Já não tenho energia para fazer manobras de reanimação seja a quem for. Ninguém lhe mandou ter um ataque cardíaco às duas da manhã. Provavelmente foi de misturar álcool com drogas. Fazer massagem cardíaca cansa os braços e amanhã tenho de aspirar a casa e lavar a loiça. Não me levem a mal, mas peçam antes a outra pessoa.

Inevitavelmente, ouvimos a SIA a cantar “It's friday night and I won't be long”... Pois, enganaram-me bem. Era para se ir só jantar e beber um copo e são três da manhã e eu aqui. É sempre a mesma coisa. Depois de o Sean Paul dizer palavras aleatórias que foram escritas com colheradas de uma sopa de letras, a SIA continua com “Baby I don't need dollar bills. To have fun tonight”. Não, que ideia! Só se forem as mulheres que entram à borla e ainda lhes pagam copos, ou quando era puto e eram os papás a pagar e um gajo ficava bêbedo só com duas cervejas. Agora, ponho-me a fazer as contas: ora bem, 20€ o táxi, mais 15€ o jantar, mais 12€ para entrar na discoteca, mais as cervejas e os gins que bebi no bar… na próxima semana como atum com massa para compensar. Ainda com a SIA: tem uma música em que se gaba, à boca cheia, só para me fazer sentir mal:  “Uh-oh, running now, I close my eyes / Well, oh, I got stamina”. Estamina com 32 anos? Não tenho, já. Correr? Nem durante o dia, quanto mais correr a esta hora. Nem vou até à praça de táxi, chamo o Uber que ele vem cá ter à porta e ainda me leva ao colo até à cama e me dá uma goma.

Quando o Justin Bieber pergunta “Is it too late to say I'm sorry now?” respondo logo que sim. É tarde para fazer seja o que for que não seja ir para casa beber um chá quentinho e dormir. A esta hora não vale a pena andar a pedir desculpa e a resolver problemas. Mais vale dormir sobre o assunto e amanhã de manhã, de cabeça fria, perceber se realmente queremos pedir desculpa ou se a culpa é da outra pessoa. A esta hora uma pessoa não deve tomar decisões importantes de vida.

Quando o Enrique Iglesias canta “Bailamos hasta las diez / Hasta que duelan los pies”. Até às dez? Estás parvo, não? São duas e já me doem os pés, não é preciso esperar até às dez. Bem basta o caminho que ainda vou fazer a pé porque não vou encontrar lugar para o carro à porta de casa. Vou ter de andar uns 500 metros, Enrique. Está bom, já chega. Foi giro e se ficar mais tempo estraga. Com todo este cansaço claro que quando oiço um dos milhares de covers e remixes do “Sweet Dreams” só penso no quão bom seria estar na cama a sonhar que estou numa cama a dormir. Acontece o mesmo quando passa a música do Major Lazer onde refere que “All we need is somebody to lean on”. Verdade, nesta altura já me encosto a qualquer pessoa ou a qualquer canto para dormir. Não fosse isto tudo já suficiente para me deprimir, lá tem de vir a Rihanna com o seu “Work, work, work, work” lembrar-me que na segunda-feira vou ter de trabalhar. Obrigadinho, Rihanna, estou aqui a tentar aproveitar o meu fim de semana e tu com essas merdas.

Outra música que não me faz sentido naquela situação é a “The Nights” dos Avicii: “So live a life you will remember / My father told me when I was just a child”. Tenho a certeza que não era isso que o teu pai queria dizer. Tenho a certeza que estar acordado até esta hora a dançar feito pinguim de copo na mão e cigarro na outra não é propriamente uma vida que eu queira recordar, até porque se continuar a beber assim amanhã não me vou lembrar do que fiz e quando chegar a velho nem saberei o próprio nome. Prossegue com um “These are the nights that never die”. Era o que faltava esta noite nunca morrer. Para mim já morreu. Há vinte minutos que estou a dizer isso ao pessoal, a ver se vamos embora. Agora é ir comer um caldo verde e um pão com chouriço, xixi e cama. O mesmo artista ainda tem a lata de dizer, noutra música, “So wake me up when it's all over / When I'm wiser and I'm older”. Deixa-me dormir! Não me acordes que se eu quiser acordar faço-o sozinho. Amanhã é domingo e se vou desligar o despertador não é para me vires acordar, se faz favor, mesmo estando já velho e sábio. Mais velho do que sábio, mas, ainda assim, deixa-me dormir até acordar e me arrepender de ter dormido tanto.

Um artista perito em fazer-me sentir velho é o David Guetta que, armado ao pingarelho, diz “Work hard, play hard, work hard, play hard”. Vê-se mesmo que nunca trabalhou a sério na vida. Isso de meter pens no computador e carregar no play e andar com os auscultadores a mandar pausa não é bem um trabalho. É por ter trabalhado no duro, durante a semana toda, que estou incapaz de play hard. Play razoavelmente? Sim. Play moderadamente até a uma hora decente? Tudo bem. Agora play hard é para quem andou a molengar a semana toda. O fim de semana com trinta é para descansar! Brincar só se for às empregadas domésticas. O David, mais uma vez com a mania que é jovem, diz noutra música “You shoot me down but I won't fall / I am titanium” e faz-me logo lembrar que não devia ter bebido aquele shot de absinto. O tempo em que o meu fígado era de titânio já lá vai. Agora é feito de iscas em vinha de alho.

Depois, vem a Icona Pop cantar “I crashed my car into the bridge. / I don't care / I love it”. Deve ser porque é o paizinho que paga o arranjo. Eu importava-me só de pensar que não tenho seguro contra todos os riscos! Mesmo que tivesse, o prémio iria aumentar uma brutalidade! Está bem que o meu Clio de 2002 está velho, mas daí a não me importar de o mandar para a sucata vai uma distância maior do que os 250 mil km que ele já fez. Esta gente não tem noção do que custa a vida. Desculpa lá Icona, mas se espetas o carro contra uma ponte (que nem sei bem como é que isso é possível) e, para além de não te importares, ainda "amas" fazer isso, então és uma mimada de merda.

“I’m sexy and I know it”, dizem os LMFAO. Nem por isso. Já tive melhores dias. Já fiz mais desporto. Já tive mais cabelo. Talvez esteja com um charme da idade, mas mais sexy não estou e recuso-me a cantar isso. Não há nada mais triste do que ver um gajo de trinta e tal ou quarenta anos, no meio de gente com metade da idade dele, a afirmar que é sexy e que sabe isso. Só ele é que sabe isso.

Clean Bandit diz no refrão de uma das suas músicas “There's no place I'd rather be”. Sem ter de pensar muito lembro-me de alguns locais onde preferia estar: na cama, no sofá, numa cadeira de pau com uma manta, no chão com um amontoado de roupa suja a fazer de almofada, etc. Para piorar isto aparecem o Deorro com Chris Brown a dizer-me que “This right here is my type of party / 5 more hours, we're just getting started”. Primeiro, este já não é o meu tipo de festa, se é que alguma vez foi. E só estamos a começar? Mais cinco horas? Mas está tudo doido?! São duas da manhã, pá. Achas que vou ficar aqui até às sete? Esta merda não fechava às seis? Tem juízo Chris Brown, se calhar é por dormires pouco e beberes demasiado que depois bates em mulheres.

E quando o DJ Snake na sua música “The Half” diz “It's a Friday, I'm 'bout to go off”? Sair à sexta-feira? Impossível. Sexta-feira é o dia da semana em que me sinto mais velho e cansado. Depois dizem “See the hoes (...)” e só penso que isso não é uma forma correta de tratar as mulheres. Aliás, sinto-me velho quando vejo que o meu pensamento a olhar para raparigas de 18 anos seminuas, a dançar como quem está a fazer amor com o ar, passou de «Olha aquela gaja boa toda safadona a dançar como quem quer peso!» para «Mas os pais sabem que ela sai assim vestida à noite?».

Por fim, é na altura que aparece aquele Pedro que é patrocinado por um modelo da Citroen e canta “Não, nós vamos ficar por aqui / A nossa história chegou ao fim” que uma letra faz sentido. Acato o que ele diz e decido que a noite chegou ao fim. Uma coisa é estar num sítio a dançar ao som de músicas que me fazem sentir velho, outra é dançar ao som de quizomba.

(Do blogue “Por falar noutra coisa”, de Guilherme Duarte)

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