Joana Teles

Atenção, abrirá numa nova janela. PDFVersão para impressãoEnviar por E-mail
joana_telesLutar com o coração

Podia ter seguido outro percurso qualquer. Contudo, numa altura em que estava prestes a tornar-se enfermeira, foi um dos dez rostos escolhidos – de um total de cinco mil – para trabalhar na RTP. É por isso que, hoje, Joana Teles, apresentadora do “Aqui Portugal” não tem dúvidas: há que saber tirar partido das encruzilhadas da vida porque, quando nos deixamos guiar pelo coração, o impossível acontece.

Descalça os sapatos, num acesso de rapidez, e desata a correr, a todo o gás, entre os cidadãos que se deslocaram ao Museu do Vinho da Bairrada, em Anadia, para assistirem, na primeira fila, ao “Aqui Portugal”. O alinhamento do programa parecia dar-lhe mais alguns minutos antes de estar novamente ‘no ar’, mas as indicações que recebe, através do auricular, dizem-lhe que não. Afinal, voltará a entrar em direto (na casa dos portugueses) em ‘três, dois, um... agora’. E assim foi. Depois de percorrer, em ritmo de corrida, todo o corredor do espaço museológico, era vê-la, já calçada e de cabelo composto, a conduzir a emissão com toda a naturalidade, ao lado do colega Hélder Reis. E, na verdade, o episódio nem pode ser considerado um imprevisto. Joana Teles está habituada a um dia a dia programado quase ao minuto. A apresentadora de televisão (da RTP), mãe, esposa e responsável pela marca de roupa para grávidas ‘BBme by Joana Teles’ trabalha seis dias por semana e fala com aqueles que a abordam com a paixão de quem gosta, simplesmente, de viver.
Aos 33 anos, é uma figura bem conhecida do pequeno ecrã neste momento, é possível vê-la no “Aqui Portugal” e “Agora Nós”, mas já passou por muitos outros programas, nomeadamente o “Só Visto!”) e é com humildade que se assume uma “privilegiada”. “Tenho a sorte de ter um trabalho de sonho. E digo isto com propriedade. Sei o que é acordar cedo para trabalhar numa área que não apreciamos, sei o que é apanhar um autocarro apinhado logo às 7h00, chegar tarde a casa e trabalhar fins de semanas consecutivos. Trabalho desde os 17 anos. Já fiz muitas coisas. Todas elas fizeram de mim o que sou hoje, principalmente o facto de ser muito terra a terra e de saber, profundamente, que sou uma privilegiada”, defendeu. A imprevisibilidade do seu percurso profissional – que a levou a fazer-se à estrada, rumo a Lisboa, com o Porto na alma e no coração – fê-la crescer, mostrando-lhe que, em determinadas alturas da vida, não há outro remédio se não ‘dar o corpo às balas’ em nome de um bem maior. É por isso que o seu maior lema de vida estará eternamente refletido na expressão “querer é poder”. De resto, “no meio de uma imensidão de defeitos”, reconhece ser uma pessoa “trabalhadora, honesta, esforçada e leal”.

O poder de um sonho guardado numa gaveta entreaberta
Joana Teles viveu na cidade do Porto até aos 25 anos, por isso, sabe que ‘não há volta a dar’: será “sempre” uma mulher do Norte. “Está-me no sangue!”, constatou. Estudou na escola primária da Lomba, na Ramalho Ortigão e, mais tarde, na secundária Alexandre Herculano e recorda com saudade os tempos de menina.
“Tive uma infância maravilhosa!”, afirmou, contando que guarda, carinhosamente, uma mão cheia de lembranças “simples”, que são, também, “as mais bonitas”. “Ver o meu avô a construir coisas do nada (gosto de pensar que o meu gosto pela bricolage deriva dele), ouvir a minha avó a cantar e a dançar pela casa, ao mesmo tempo que, com uma infinita paciência, me respondia a tudo quanto lhe perguntava...”, enumerou, acrescentando que é impossível esquecer ainda as brincadeiras no seu “pequeno canto de terra” em casa dos avós. “Vivi ali histórias incríveis. Brincava com caracóis e bichos-de-conta! Inventava fábulas que só na minha cabeça faziam sentido. Mas também tinha o lado de menina que brincava com as Barbies e seus vestidos de princesa. Tinha tempo para brincar e crescer”, frisou.
Chegado o momento de ingressar no ensino superior, a portuense optou pelo que lhe pareceu mais lógico. Atraída pela área da comunicação, mas “sempre muito realista” e segura de que “entrar na televisão era só para quem tinha conhecimentos”, não hesitou em guardar o sonho “numa gaveta” e apostar noutro caminho que sempre a fascinou: o das ciências. Desta forma, tentou entrar, por duas vezes, em Medicina, mas, como ficou a cinco e três décimas de o conseguir, decidiu optar por Enfermagem. “Entendi, depois, que acabava por pôr em prática o meu sentido de comunicar com os pacientes, paralelamente aos cuidados clínicos. Nos estágios, falava imenso com eles! Foi aí que percebi que, para muitos, a doença maior era a solidão”, contou. Ainda assim, “apesar de ser feliz no curso” escolhido, “a gaveta com o sonho continuava presente”. Aliás, não só presente como “aberta”. “Ia para o último ano de Enfermagem quando a RTP anunciou um casting para futuros apresentadores. Estávamos em 2006 e decidi concorrer. Fiz provas e mais provas, num casting que durou um ano. Fomos cinco mil”, revelou. No dia 6 de março de 2007, recebeu um telefonema que viria a mudar, por completo, a sua vida: soube que foi selecionada como um dos dez novos rostos da estação pública e que seria apresentada como tal já no dia seguinte, durante a Gala dos 50 anos da RTP.
Entretanto, nesse mesmo ano, durante um normal almoço de sábado com a família, recebeu outra chamada que hoje recorda com especial carinho: era Daniel Oliveira a convidá-la a integrar a equipa do “Só Visto!”. Esse é, aliás, um dos momentos desvendados, recentemente, pela apresentadora, no seu blog - http://www.bastidores.pt/ - onde partilha experiências como repórter, mulher e mãe. Aceitou o desafio, sem histerismos, e limitou-se “a absorver tudo quanto podia” para que nada falhasse no seu primeiro projeto televisivo.

“O carro ia cheio... eu é que não”
Em janeiro de 2008 – após cinco meses a fazer as reportagens que aconteciam pelo norte do país – Daniel desafiou Joana Teles a ir para a capital. “A equipa do norte ia terminar e, a querer continuar no programa, teria de ir viver para Lisboa. Aceitei”, contou, recordando que ainda tem bem presente na memória o dia em que se fez à estrada em direção a uma nova vida. O carro, esse, “ia cheio”, com “edredões, panelas e pratos, roupa e almofadas, tudo quanto cabia”. “Eu é que não”, confessou. “Apesar de nunca ter criado expectativa nenhuma em relação ao meu futuro na televisão – o que encaro como uma enorme vantagem – viajei para Lisboa cheia de vontade de trabalhar mas sem saber muito bem para o que é que ia. Para trás ficava a família, o curso [abandonado a um ano do fim] e os amigos de sempre. Foi uma viagem rumo ao absoluto desconhecido”, descreveu a apresentadora. Só uma semana depois de ter chegado à nova cidade é que conseguiu arranjar casa e, entre momentos divertidíssimos de trabalho e aprendizagem com os colegas e períodos menos bons, em que as saudades da família lhe gritavam, ao ouvido, para desistir, fez-se profissional. O percurso pelo “Só Visto!” prolongou-se durante oito anos, mas, segundo a portuense, os ensinamentos sugados ao longo da experiência ficarão para sempre. “Não tenho curso de Comunicação Social, fiz-me com a prática, a observação, a humildade e o espírito de aventura. (...) Aprendi a calar, engolir, vergar, mas nunca cair”, sublinhou.
Em simultâneo, Joana Teles teve oportunidade de alinhar em muitas outras aventuras: apresentou galas, programas especiais e passou, por exemplo, pelo “Jogo Duplo”, um programa de horário nobre que “muito gosto” lhe deu fazer. “Reportagens e diretos perdi-lhes a conta. Mas os programas mais marcantes têm sido o ‘Verão Total’ e o ‘Aqui Portugal’. Estamos ali, lado a lado com as pessoas, na sua terra. Não há barreiras nem filtros. Percebemos logo se gostam ou não. O retorno é imediato. Para mim, televisão é isto. Estar próxima das pessoas no país real”, defendeu. Sinceridade, naturalidade e esforço para fazer mais e melhor são as características valorizadas pela profissional no trabalho em TV.
E há dois grandes ensinamentos retirados ao longo dos últimos anos: “a importância de sermos nós próprios e a volatilidade de tudo isto”. Imprevistos e momentos caricatos, esses, também não faltam e são superados com um sorriso no rosto. Num deles, a portuense estava, tranquilamente, a apresentar uma gala e só se apercebeu que havia algo de errado com o fecho do vestido quando viu um assistente, muito aflito, a levar-lhe um casaco. “Felizmente saí logo de cena e chorei a rir!”, confessou.
De espírito agitado, Joana nunca se fechou a novos projetos. Um dos mais recentes, com apenas sete meses, é a marca de roupa para grávidas “BBme by Joana Teles”. Segundo explicou a mamã (de um casal), o projeto nasceu da necessidade sentida ao longo do período de gestação, durante o qual não encontrava roupa gira e confortável. “Num dia, por impulso, fiz uns desenhos de roupa que gostaria de usar (ainda hoje os tenho comigo!). O projeto hibernou durante dois anos, mas, no momento que achei ser o mais adequado, a marca nasceu. E não abdiquei da máxima qualidade e de produzir tudo em Portugal”, contou. Até agora, o balanço não podia ser mais positivo. “A BBme tem-se imposto como uma marca de roupa para grávidas com modelos exclusivos, de edição limitada, com muita qualidade mas a um preço acessível, e com uma imagem que a define”, acrescentou.

“O Porto e os portuenses não se descrevem… sentem-se”
Com tantos projetos e assuntos a tratar, os tempos livres acabam por ser “muito escassos”. “Trabalho seis dias por semana e tenho tudo organizado quase ao minuto. Só assim consigo fazer o que preciso”, notou. As idas à terra natal são, por isso, menos frequentes e as saudades, essas, gigantes, “sobretudo dos portuenses, da sua genuinidade e transparência, da naturalidade com que vivem e se mostram aos outros”. “Mas também sinto falta da baixa da cidade, dos lanches pela Foz, das visitas aos jardins, de ouvir o adorável sotaque do Porto e até dos dias mais cinzentos. Sinto falta da minha terra, muitas vezes”, garantiu. O centro histórico, que a apresentadora percorreu, “a pé, vezes sem conta”, é dos seus sítios de eleição. Mas toda a cidade continua a encantá-la. No fundo, continua a ser sua. “Há um equilíbrio perfeito entre o antigo e o moderno, a tradição e a inovação, o abrir as portas ao mundo sem perder a essência, o saber receber por vontade e não por interesse. É uma cidade linda, feita de gente maravilhosa. Ninguém fica indiferente ao Porto! A história respira-se nas ruas, mas o futuro cosmopolita espreita logo ao virar da esquina. O Porto e os portuenses não se descrevem. Sentem-se. E o que eu sinto é bom. É ótimo!”, resumiu.
Entre as mil e uma tarefas do dia a dia, ainda há espaço para fazer planos. Viajar é, definitivamente, um deles. “Acho que é a única coisa em que gastamos dinheiro mas de onde voltamos mais ricos”, sublinhou, revelando que a viagem da sua vida será “a volta ao mundo”. Não sei quando. Tenho tempo. Até lá, faço outras ‘viagens’”, frisou.
Na verdade, para Joana Teles, o importante é mesmo desafiar o espírito a nunca parar. E o que é que ainda lhe falta fazer? “Tudo”, garantiu. “Sou uma ‘monkey mind’, estou sempre a pensar, a criar, a fazer. Sou irrequieta por natureza e se me virem parada é mau sinal! A acontecer, deve ser fraqueza... Nada que uma bela francesinha não resolva!”, apontou, com o à vontade de quem desafia, constantemente, o que, à partida, parece impossível.
Faixa publicitária
Faixa publicitária