Maria Manuel Mota

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maria_manuel_motaExcelência científica no feminino

Adora uma boa conversa, vibra com as reuniões no laboratório e encara o seu modo de vida – ser cientista – como um privilégio, pelo prazer dos momentos em que, após meses ou anos de trabalho, consegue responder às perguntas que lhe invadem a mente, em jeito de provocação. Despachada e rigorosa, Maria Manuel Mota venceu o Prémio Pessoa 2013 pela dedicação de anos ao estudo do parasita da malária. Mas a história da especialista, natural de Vila Nova de Gaia, não vai ficar por aqui. Há novos dados de investigação a caminho e muita vontade de assegurar a excelência de um setor “que é de todos e para todos”.

Não são precisos mais do que alguns minutos de conversa para perceber que a incontrolável sede de descoberta talvez tenha sido o passaporte que levou Maria Manuel Mota a entrar para a história do Prémio Pessoa como a mais jovem vencedora do galardão, em 2013, ainda com 41 anos. Sentada no seu gabinete – cuja porta raramente se fecha – a diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular (IMM), situado no campus da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, é considerada uma das maiores autoridades mundiais no estudo da malária e fala da equipa que orienta e do trabalho desenvolvido, de corpo e alma, com uma paixão que parece renovar-se a cada segundo.
“No fundo, ser cientista é quase uma forma de estar no mundo”, constatou, reconhecendo que foi exatamente essa entrega total ao prazer de descobrir que a conquistou. Dinamismo, proatividade e inquietação são, assim, algumas características que amigos e professores sempre teimaram em carimbar-lhe no currículo. “Sou muito apressada em tudo o que faço. Agora, com 44 anos, estou mais calma, mas as pessoas sempre me disseram que parece que a vida é que corre atrás de mim”, confessou. Talvez por isso é que, na festa de aniversário que o marido lhe preparou, aos 40 anos, Maria – que ainda não havia refletido sobre o assunto – tenha percebido, com algum sobressalto, que, na ausência de percalços de maior, o mais provável é que ainda tenha uma ‘corrida’ de aproximadamente quatro décadas pela frente. “Meus Deus, não sei se aguento mais 40 anos!”, afirmou, bem disposta, quase como quem explica que, viver assim, tão dedicada e intensamente, dá algum trabalho.

Do Porto para o mundo
De sorriso fácil e olhar atento, é com pragmatismo que a especialista em malária reconhece que, nos tempos da universidade, não fazia “a mínima ideia” do que era ser investigadora. Ainda assim, foram alguns momentos vividos durante a formação académica, no norte do país, que lhe mostraram o caminho a seguir. Terminada a licenciatura em Biologia (1992) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Maria Manuel Mota, natural de Vila Nova de Gaia, aventurou-se num mestrado em Imunologia, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), deixando-se conquistar pelo fascínio da ciência.
“A minha primeira experiência laboratorial foi exatamente no ICBAS, através de uma pergunta muito simples colocada pelos professores Artur Águas e António Sousa Pereira. Foi a primeira vez que percebi o conceito de colocar uma hipótese e testá-la”, recordou. E foi também durante o mestrado, coordenado por Maria de Sousa, que a então jovem estudante teve o “privilégio” de lidar diariamente com cientistas de todo o mundo, chamados a lecionar na universidade ao longo de alguns meses. “O entusiasmo deles atraiu-me imenso”, confessou, adiantando que, na sequência de um dos módulos apresentados – dedicado a parasitas e à infeção – surgiu a oportunidade de passar dois meses em Londres, numa experiência prática ainda integrada no mestrado. Com 22 anos, experienciou, assim, “os melhores meses” da sua vida, a trabalhar a tempo inteiro num laboratório, com todos os momentos de reflexão, discussão e descoberta que lhe estão associados. “No final, lembro-me perfeitamente de chorar na viagem de avião de regresso ao Porto porque sabia que era exatamente aquilo que queria fazer o resto da vida”, contou. A dar provas do inconformismo que lhe é reconhecido, acabou por conquistar uma bolsa e voltar a Londres, onde permaneceu mais quatro anos, durante o doutoramento – dedicado ao estudo do plasmodium, o parasita da malária.
Concluído mais um ciclo de formação, a cientista considerou que o “mais natural” seria avançar para um pós-doc (experiência pós-doutoral). “Surgiu uma oferta num laboratório de malária fantástico que eu tinha imensa curiosidade de conhecer e que vinha na ‘Nature’. Candidatei-me, fui a uma entrevista e acabei por ficar”, contou. Os três anos seguintes foram, então, passados nos EUA, na New York University Medical Center, na qual também lecionou. E, uma vez mais, a atitude de Maria voltaria a surpreender os colegas, nomeadamente o seu mentor, Vitor Nussenzweig, que, na altura com 71 anos, confessou nunca ter tido uma aluna tão “impressionantemente criativa”, que o ‘bombardeasse’ com “200 ideias”, como se fosse “um foguete”. A experiência do “pós-doc” viria a marcar irremediavelmente o percurso da investigadora, que testemunhou, nesse período, oseu primeiro momento “uau!”, num estudo que agitaria a investigação a nível mundial.

A primeira descoberta e as novidades que se avizinham
Entre as várias descobertas que teve oportunidade de fazer, há uma que, para Maria Manuel Mota, adquire um destaque especial, por ter aberto um campo de trabalho completamente novo. “Foi quando mostrei, durante o pós-doc, o parasita, que é transmitido pelo mosquito, a atravessar células. Pensava-se que o plasmodium chegava a uma célula e se fixava nela, mas não, ele tem a capacidade de atravessá-las até chegar àquela que pretende”, resumiu, explicando tratar-se de uma “capacidade fantástica”, que lhe permite chegar ao fígado. Com a nova informação, cientistas de todo o mundo alteraram a sua perceção da forma como o parasita se estabelece no ser humano, redirecionando a pesquisa para novos medicamentos. A partir de então, outras questões foram surgindo no seu dia a dia, mesmo depois de voltar a Portugal, em 2002, com o marido, profissional da mesma área. “Já fomos para Nova Iorque com a ideia de regressar, mas obviamente que isso não teria acontecido se não tivéssemos condições cá para trabalhar, oferecidas inicialmente pelo Instituto Gulbenkian da Ciência e depois pelo IMM”, referiu.
Entretanto, já em equipa, Maria Manuel Mota continuou a dar cartas na investigação. Em 2014, por exemplo, as suas pesquisas “acabaram com um dogma que havia no campo”: o de que a presença do parasita no fígado (fase silenciosa da infeção) não causa sintomas nem é reconhecida pelo hospedeiro. “O que mostrámos, num artigo publicado na ‘Nature Medicine’, é que o parasita é detetado, só que tem formas de tentar evitar a resposta que o hospedeiro monta contra ele”, esclareceu. A descoberta levou, então, os investigadores a tentarem descodificar a forma como o plasmodium ‘ilude’ essas respostas criadas pelo ser humano, aspeto que, notou, “pode ter implicações na forma como controlamos a malária”.
E como ainda não se cansou do plasmodium, com o qual mantém uma “relação de simbiose”, a responsável da Unidade de Malária do IMM promete mais novidades para breve. “Até agora, temos estudado a forma como o ser humano responde à presença do parasita. Neste momento, estamos muito entusiasmados com o modo como o ambiente afeta tudo isto, porque sabemos que, num dia, a pessoa está em sítios de calor, noutro dia de frio, às vezes come mais, outras vezes menos”, explicou, adiantando que a equipa tem em mãos “uma descoberta muito interessante”, ainda no segredo dos deuses. “Após o momento ‘uau!’ há vários meses de confirmações para termos a certeza de que não se trata de um artefacto. Mas posso dizer que, dependendo daquilo que se come, provavelmente a infeção vai ser diferente”, revelou, com o entusiasmo estampado no rosto.

“O sucesso de Portugal passa por apostar na educação e na ciência”
Apesar de reconhecer que os EUA são o local “onde é mais entusiasmante fazer ciência”, Maria Manuel Mota não deixa de sublinhar que, há 13 anos, quando voltou do continente americano, a ciência vivia “um período fantástico no nosso país”. “Estavam a regressar imensas pessoas da minha geração e começava a haver um ambiente muito jovem e a ideia de alavancar a ciência em Portugal”, ilustrou, explicando ser essa a razão pela qual nunca se arrependeu da decisão tomada, juntamente com o marido. Ainda assim – prosseguiu – se a adrenalina de “criar algo novo” é “extremamente estimulante”, há sempre o lado negativo de um setor “ainda sem alicerces estáveis” e que, em momentos de crise, acaba por “abanar mais do que seria expectável”.
E desenganem-se os que consideram que ser investigador exige apenas uma capacidade de análise brilhante e um laboratório com todos os meios necessários. Há que conseguir financiamento de governantes, instituições e mecenas. O dinheiro dos prémios conquistados – em 2004, por exemplo, Maria foi distinguida internacionalmente com o “European Young Investigator Award”, no valor de um milhão de euros – são lufadas de ar fresco para as equipas, que podem, assim, continuar os seus estudos. Mas há muito trabalho envolvido na preparação de candidaturas a fundos, que obrigam os investigadores a debruçar-se num projeto às vezes ao longo de meses. “Aquilo tem de estar na nossa cabeça dia e noite. É assim a vida de cientista. A perseverança é fundamental”, notou. Pela experiência adquirida nos últimos anos, a responsável considera que o discurso político português “é muito no sentido de que a ciência é um pilar necessário à sociedade”, quando, “na prática”, tudo é “mais relativo”. “Há restrições em todas as áreas, mas tudo depende das prioridades da sociedade e dos governantes”, notou, defendendo acreditar “profundamente que o sucesso de Portugal passa por apostar na educação e na ciência”. “São dois pilares fundamentais para podermos progredir e sair deste ciclo vicioso, de altos e baixos constantes”, sustentou.
Em 2013, um telefonema inesperado de Francisco Pinto Balsemão confrontou a especialista com a conquista do Prémio Pessoa, galardão instituído em 1987 pelo Expresso e pela Caixa Geral de Depósitos para distinguir (com 60 mil euros) uma figura que se tenha destacado na vida científica, artística ou literária. “Pensei logo: ‘tão nova, com 41 anos, o que é que esperam exatamente de mim?’”, afirmou, reconhecendo que o pânico inicial foi dando lugar ao orgulho e à responsabilidade de continuar a lutar pela excelência. Instada pela organização do prémio a manter o sigilo, Maria acordou, no dia seguinte – para o qual estava agendada a festa dos dez anos do IMM, em que assumiria o cargo de diretora executiva – e foi, tranquilamente, ao cabeleireiro. Só duas horas mais tarde, quando reparou nas 22 mensagens que tinha no telemóvel, e, já no laboratório, com os telefones em alvoroço, é que teve a real perceção da distinção assegurada. “A diretora de comunicação veio logo dizer-me ‘Maria, devias ter-me dito logo! Não preparei nada!’ e eu só respondi que não achava que isto fosse ser assim”, confessou. Hoje, ao recordar o momento, conclui que o prémio veio apenas intensificar a sua ânsia de chegar mais além.

A investigação “fez-me aprender a falhar”
Integrada numa equipa de 15 pessoas – entre portugueses e estrangeiros das mais diversas áreas – a especialista não sabe trabalhar sem expressar o seu entusiasmo constante. “[Os investigadores] veem-me tão animada que se convencem de que aquela é a hipótese correta, mas a experiência que fazem no dia seguinte mostra que, afinal, não”, descreve, entre gargalhadas, reconhecendo, contudo, que só assim é possível orientar pessoas que, por vezes, levam anos a arranjar uma explicação para determinada observação. De resto, persistência, rigor e muita criatividade são os ingredientes valorizados pela cientista. “Gosto de ver nos olhos das pessoas o entusiasmo e a vontade de trabalhar”, realçou. Não será, portanto, de estranhar que esta mulher “foguete” não aprecie particularmente o arrastar de pés, pouco dinâmico, de um ou outro aluno novo do laboratório.
Numa espécie de retrospetiva à sua carreira, reconhece que foi aprendendo a ser “mais racional” e “modesta”, ainda que não “falsa modesta”. Além disso, atribui à ciência o facto de ter aprendido a saber falhar.
Mãe de duas meninas (de 8 e 12 anos), Maria Manuel Mota sente--se bem no Porto, onde continua a visitar a família, mas não é uma pessoa saudosista. “Já nem sei bem de onde sou. Vivi 21 anos no norte, vivo há 12/13 em Lisboa e passei alguns anos em Londres e Nova Iorque”, contabilizou, apontando a cidade americana como o seu local de eleição. Dos primeiros anos de vida guarda, essencialmente, o convívio com os amigos. “Tive uma educação quase militar e, por isso, não tenho recordações de estar, por exemplo, a brincar na rua, apesar de ter nascido na Madalena. Recordo a minha escola primária e depois a secundária, que era em Valadares e que adorei. Fiz lá ótimos amigos. Também tenho imensas recordações das férias que passava numa aldeia no Douro, na casa dos meus avós”, enumerou. E no ‘livro das memórias’ constam ainda as conversas tardias e os momentos de diversão passados, por exemplo, na discoteca “17”, em Paços de Ferreira, onde vivia a avó de uma das amigas. Mas talvez por pertencer mais ao mundo do que a algum local em particular não consiga estabelecer diferenças significativas entre pessoas de diferentes países ou cidades. “Para mim, é mais difícil trabalhar com ingleses porque não é fácil perceber o que eles sentem e pensam (…). Mas, no final, quando conhecemos as pessoas, a verdade é que somos parecidos. E, portanto, não acho que lisboetas e portuenses sejam diferentes. Na essência, somos todos pessoas”, defendeu, admitindo que, nas cidades maiores, o distanciamento entre cidadãos é superior.
Nos tempos livres, além das saídas com amigos, não prescinde de ler um pouco de tudo, “desde revistas como ‘Vogue’ e ‘Vanity Fair’ a um bom best--seller”, e de ver filmes sobre pessoas “que viveram de uma forma diferente”. Explorar o sudoeste asiático é um dos desejos da cientista, que não teme a morte mas receia “ficar azeda” com a idade. Todavia, pensando bem no jogo de hipóteses da vida, “não é assim tão grande a probabilidade disso acontecer”, arriscou, deixando transparecer, uma vez mais, a esperança que a move a cada dia.
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