Rui Massena

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rui_massenaO músico sem medos

Não se deixa intimidar pelas falhas. “se não errarmos, não avançamos”, defende. Na música e na vida, Rui Massena arrisca sem medos. Dirigiu orquestras dos mais variados países, teve um programa de televisão, dançou hip-hop de batuta na mão, reforçou a sua ligação ao piano e ainda não se cansou de acordar, todas as manhãs, apaixonado pela vida e pela eterna descoberta.

É doce nas palavras, rebelde no jeito e, acima de tudo, apaixonado pela partilha de experiências, pelos passos ainda incertos dos novos desafios e pela liberdade dos mil e um caminhos da criação. Se salientar apenas o look descontraído – onde não pode falhar o cabelo espetado – talvez não adivinhe, ainda, de quem falamos. No entanto, se lhe pedir que recue no tempo à Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura – na qual a figura em questão embarcou, de batuta na mão, na aventura “Expensive Soul Symphonic Experience” – é capaz de acertar logo à primeira tentativa. Sim, referimo-nos a Rui Massena, maestro e compositor (também conhecido do universo da televisão), de 42 anos, que se lançou, no início de 2015, num novo desafio, com a apresentação de “Solo”, disco onde se estreou como pianista e compositor.
Com a agenda de concertos bem preenchida nos próximos meses, o músico, natural de Vila Nova de Gaia, não sabe se este primeiro trabalho “foi um virar de página ou um capítulo”. No entanto, pouco importa. “Por agora, é uma necessidade de existência como compositor”, notou, confessando a alegria imensa de poder partilhar com o público as palavras que escreveu, o seu som. “E sabe, no fim, quando as pessoas me vão cumprimentar e me partilham confidências que a minha música acompanhou, vou para casa satisfeito. Sinto-as tranquilas”, afirmou. Na verdade, “Solo” surge da necessidade de um reencontro consigo mesmo – após 14 anos de trabalho intenso – daí o seu caráter mais tranquilo e intimista. “Era algo que queria mesmo fazer”, constatou, reconhecendo que, a dado momento, se viu na necessidade de explorar o lado da criação para se sentir, efetivamente, realizado e feliz. Agora sim pode conciliar o melhor de dois mundos: o da composição e o da direção de orquestras.
E enquanto percorre o país a apresentar o mais recente trabalho (vai atuar a 6 e a 28 de novembro no Misty Fest, em Vila do Conde, e no Centro de Artes e Espetáculos, na Figueira da Foz, respetivamente), já está a preparar um segundo disco, que deverá ser lançado no arranque de 2016. Além disso, tem-se ocupado, nos últimos tempos, com os preparativos para a abertura de um pequeno estúdio de música, nas Antas, que funcionará “como um lugar de experiências, de aprendizagem e de partilha”.
Depois de ter dirigido cerca de três dezenas de orquestras, entre Portugal e outros 13 países, Rui Massena fala, agora, com a tranquilidade de quem está a saborear uma nova fase de liberdade. Continua com os seus projetos de direção de orquestra, passa mais tempo ao piano e convive mais com a família e os amigos, algo que, “durante muitos anos” não conseguiu fazer.

“Fascina-me poder construir, todos os dias, algo de novo”
Como será o segundo trabalho? “Sinceramente, não sei”, respondeu, tranquilo, adiantando que, neste momento, já tem vários temas feitos e que há poucos prazeres na vida como o de descobrir “novas conjugações sonoras”. E num dia a dia que até descreve como banal, a maior adrenalina do maestro talvez seja mesmo a de alimentar a sede de conhecimento e de experiências que o caracteriza. “Fascina-me poder construir, todos os dias, algo de novo. Gosto da ideia de aprender com novos projetos, da construção. E tento que a minha vida passe, diariamente, por essa palavra”, sublinhou.
Se, durante o seu trabalho, conseguir “mexer com a sociedade” tanto melhor. Um exemplo? O projeto com os Da Weasel que, em 2005, escreveu na íntegra, no âmbito dos 500 anos do Funchal (Massena foi diretor artístico e maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira entre 2000 e 2012). Juntar o hip-hop à orquestra foi o grande desafio assumido pelo músico, que pretendia provar ao público que uma orquestra é um instrumento acessível a toda a gente e a todos os tipos de música. E imagens como a de Massena – um homem de batuta – a cantar e dançar hip-hop em palco foram levando as pessoas a encará-lo como um maestro “diferente”. Ainda assim, o compositor é perentório: não se considera excêntrico. “Sou uma pessoa apaixonada pela vida e pelo que faço. Talvez isso me faça gritar alto que gosto muito, e as pessoas acham isso uma excentricidade porque a sociedade está habituada a viver com meios termos. Frequento o que me dá prazer e que não magoa os outros. Gosto do que me desafia e da criatividade”, esclareceu.
Mas a música não entrou na sua vida como uma intensa paixão de infância, foi, sim, um caminho descoberto aos poucos, que o foi surpreendendo. “Desde criança que estudo música, descobri-a como veículo de contacto entre as pessoas. Quando senti o apelo para me dedicar profissionalmente, avancei”, contou. Ainda menino (dos seis aos oito anos), teve aulas de formação musical e piano com o professor César Morais. Depois, aos oito, foi para a Academia de Vilar do Paraíso, onde, aos 17 anos, começou a dirigir coros e a escrever música para grupos corais e instrumentais. Nessa fase, a música como uma espécie de “bem comum” começou a conquistá-lo, ainda que as dúvidas não estivessem plenamente desfeitas. Acabou por fazer um ano de Direito, no Porto, mas quando ingressou na Academia Nacional Superior de Orquestra (ANSO), nunca mais pensou em voltar atrás.

Fazer do “sangue a ferver” uma força
Aos 27 anos, quase a partir para Chicago (tinha-se candidatado à Northwestern University), surgiu a oportunidade de dirigir a Orquestra Clássica da Madeira. Com ou sem medo, arriscou e ficou em Portugal porque, afinal de contas, para um maestro, a prática é tudo. Desta forma, iniciou a sua vida profissional (em 2000) a dirigir músicos mais velhos. E se, ao longo do tempo, conseguiu ganhar o respeito do grupo foi por ter assumido “que não tinha experiência, fazendo disso uma força”. “Quando somos muito jovens, o sangue a ferver compensa a menor experiência. Tentei sempre ser correto nas atitudes enquanto líder, mesmo tendo falhado, mas fui sempre dedicado”, notou.
Ao longo dessa temporada (de 12 anos), teve oportunidade de trabalhar com nomes sonantes como os de José Carreras, Ute Lemper, Wim Mertens, Ivan Lins, Dulce Pontes, Mário Laginha e Bernardo Sassetti. Recorda com especial carinho os momentos passados com Guy Braunstein, ex-concertino da Filarmónica de Berlim. “Um músico extraordinário e uma boa pessoa. Aprendi muito com o seu modo. Seria difícil enumerar a quantidade de boas experiências que tive e em que aprendi, quer artística ou pessoalmente. A experiência de dirigir uma orquestra durante doze anos ensinou-me coisas que apenas o tempo ensina. É diferente tomar decisões durante três ou doze anos”, observou.
A paixão por comunicar levou-o, entretanto, ao pequeno ecrã e, em 2010, foi pela primeira vez júri da “Operação Triunfo”. “Nestes programas, tenho a oportunidade de acesso a experiências com outros tipos de música e de artistas. Além disso, são um exemplo do tipo de entretenimento em que acredito. A amplificação da criatividade da sociedade”, explicou. Mais tarde, em 2013, embarcou noutra aventura, desta vez a bordo do “Música, Maestro” (transmitido na RTP1), programa que servia para falar do mundo da música clássica, envolvendo a população e revelando o que se faz no meio artístico. “Puro serviço público”, resumiu. Experiências internacionais também não lhe faltaram. Aliás, em 2007, foi o primeiro maestro português a dirigir no Carnegie Hall, em Nova Iorque. “Foi bom sentir-me a trabalhar numa cidade que me desafia. São experiências que, muitas vezes, nos constroem mais pela vertente pessoal do que apenas pela artística, por incrível que pareça”, sublinhou. Durante dois anos, de 2009 a 2011, foi também o principal maestro convidado da Orquestra Sinfónica de Roma.

“Ficarei sempre em dívida com Guimarães e com todos os músicos”
Ligado como programador à Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, Rui Massena não só ergueu a Fundação Orquestra Estúdio (FOE), com músicos de diversas nacionalidades, como montou, juntamente com os Expensive Soul, a “Expensive Soul Symphonic Experience”, levando a música pop e rock a caminharem de mãos dadas. A harmonização de “culturas, escolas e personalidades” foi, segundo frisou, um fator decisivo para o sucesso da FOE, assim como de qualquer outra orquestra. “Não se chega à música sem que tudo antes esteja tratado. Foi uma experiência maravilhosa construir uma orquestra do nada, juntamente com toda a equipa da Capital Europeia. Ficarei sempre em dívida com Guimarães e com todos os músicos pela experiência”, assegurou. Na verdade, o projeto orquestral acabaria por se transformar num caso de estudo, tendo arrebatado completamente o coração do público (aspeto que se refletiu no sucesso de bilheteira). E na experiência com os nortenhos Expensive Soul (de que resultou o DVD mais vendido em Portugal em 2012), o que mais surpreendeu o músico também foi a reação das pessoas. “Criou-se um momento muito especial, construído por quem estava no palco e também no público, que irá ficar para sempre na minha memória”, frisou, reconhecendo que, neste projeto, a intenção foi, igualmente, a de “dar a conhecer as possibilidades sonoras de uma orquestra. “Às vezes tem que ser como na ciência – tentativa, erro – não existe outra forma de construir experiência. Se não errares não avanças e apenas avança a prudência”, constatou. E é por isso que ainda lamenta o facto de o modelo da FOE não ter sido preservado. “Os modelo de sucesso devem ser mantidos e aperfeiçoados. De outro modo, com que modelos vivemos?”, questionou. Como não seria de estranhar, o espírito aventureiro e a entrega total aos desafios valeram-lhe a conquista de alguns troféus, nomeadamente a Medalha de Mérito Cultural da Academia de Artes e Ciências Brasil (em 2013) e a Medalha de Ouro de Mérito Cultural e Científico atribuída pelo município de Vila Nova de Gaia, onde nasceu.
Bem conhecedor do panorama musical externo, o maestro acredita que o meio artístico português está a ter dias mais risonhos. “Apesar do nosso contexto geográfico não ser favorável à liderança das grandes correntes artísticas, dispomos de grandes criadores e intérpretes. É verdade que não nos inscrevemos suficientemente na realidade musical europeia porque a cultura também é um investimento e, nesse aspeto, estamos muito longe do básico e da estratégia de outros países”, defendeu. No entanto, ressalva a existência de “gerações musicais [portuguesas] com muita identidade” e de uma nova atitude das instituições, “que já perceberam que têm de se abrir à sociedade e integrar os novos tempos”.

“O inverno do Norte é poético”
O compositor está, atualmente, a viver no Porto, mas reparte as suas semanas com a capital, que, aliás, adora. “As cidades são as pessoas. Gosto muito de viajar, faço-o regularmente e não me consigo afeiçoar a apenas uma cidade, gosto dos contrastes”, explicou. A “contradição entre o granito e o mar”, a “hospitalidade e intimidade” e o inverno do Norte, que considera “poético”, são, no entanto, aspetos aos quais não resiste. Gosta de compor logo pela manhã e, ao longo do dia, não prescinde de dedicar uma hora e meia à leitura, pelo prazer de se surpreender “com palavras novas”, que o façam pensar. Quanto à busca de inspiração para o seu trabalho, garante não ter “fórmulas mágicas”. “Gosto de ouvir música, ler, ir ao cinema, estar com amigos. Diria que, se estivermos atentos ao que nos rodeia, o momento está logo ali”, referiu.
Ao olhar para o futuro, percebe que tem “tanto para fazer” que até se cansa de pensar nisso. “Bom, cheguei a uma altura na minha vida em que olho para trás com orgulho de ter tido uma vida construtiva e isso cria bases para uma autoestima positiva. Estou, no geral, sempre à procura de duas coisas: estar bem e ser útil à sociedade”, concluiu.
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