Manuela Gonzaga

doida7O poder da imprensa na história de Maria Adelaide… Doida Não!

Em 1918 o país não ficou indiferente à história de Maria Adelaide que fugiu de casa a 13 de novembro para viver um novo amor junto com o motorista, Manuel Claro. Foi internada compulsivamente por ordem do marido, Alfredo da Cunha, mas resistiu sempre através da caneta e papel. Um século depois a história é reeditada, numa completa biografia com o carimbo de Manuela Gonzaga.

“Desapareceu uma senhora de mais de 40 anos, de estatura não alta. Usava vestido castanho-escuro, casaco preto, de abafo, romeira e peles, canotier de veludo preto, sem enfeites, e sapatos de verniz abotinados”.
Esta notícia constou durante uma semana seguida na primeira página do “Diário de Notícias”. Atente-se que nunca identificava o nome da mulher, mas prometia recompensa a quem tivesse informações sobre o caso.
doida8Esta não é a primeira vez que a história de Maria Adelaide é contada. Foi retratada inúmeras vezes pela comunicação social e, em 2009 a jornalista e historiadora Manuela Gonzaga publicou uma investigação de grande detalhe sobre o tema na obra “Doida Não e Não!”, que foi recentemente reeditada pela Bertrand. Um livro bem fundamentado, segmentado e claro quanto a esta história de amor. Uma biografia cativante, capaz de nos conferir grandes lições nomeadamente a importância e a força de uma imprensa livre.
A VIVA! assistiu à apresentação no Hospital Conde de Ferreira e falou também com a autora, de forma a levantar um pouco o véu desta história.
Aos 48 anos, a filha do fundador do “Diário de Notícias” decidiu abandonar uma vida de fausto para se entregar a um romance com o antigo motorista, 22 anos mais novo, de seu nome Manuel Claro. Internada compulsivamente pela família no Hospital Conde Ferreira, sempre negou estar louca, usando o poder dos jornais para contar a sua versão.
Certa vez Maria Adelaide fugiu, com a ajuda do novo amor. Mas foi apanhada e voltou a ser internada. ‘Loucura lúcida’ era o diagnóstico de uma luta dura que se avizinhava, mas com direito a final feliz. Até que a morte os separe… literalmente.

Manuela_gonzaga_A_jsilveirarComo descobriu a história de Maria Adelaide e Manuel Claro?
O primeiro contacto que tive com esta história foi através do filme “Solo de Violino” de Monique Rutler, no princípio dos anos 90. Eu era, à época, jornalista na Marie Claire e fui entrevistar a cineasta, que me facultou cópias dos diários de Maria Adelaide, escritos nos tempos em que esteve aprisionada numa instituição para dementes, o Hospital Conde de Ferreira. Fiquei interessadíssima, e achei de imediato que o tema daria um ótimo livro. Só que implicaria muita investigação. O filme termina, como se vê agora pelo livro, a quarenta anos do fim desta história de amor que foi realmente até que a morte os separou. Mas… para onde teria ido a senhora, depois da saída tão inesperada daquela instituição? Como teria sido a sua vida depois? Teria continuado a viver com o seu antigo motorista, o seu amor pelo qual deixara tudo? Mãe de quatro filhos, muito pequenos, com uma profissão muito exigente (creio que já era chefe de redação da revista, nessa altura), percebi que não tinha tempo nem espaço mental para me dedicar a esse trabalho. Um dia, pensei, chegaria a sua altura. E nunca mais pensei no assunto.

Porquê o interesse em investigar mais a fundo o romance?
Para uma escritora, de mais a mais historiadora, como eu, ainda por cima jornalista durante quase toda a minha vida profissional, historias destas obrigam-nos a ir ao fundo da memória. Aqui não havia meio termo: era tudo grandioso, para o melhor e para o pior. E, por parte do casal de apaixonados, uma grandeza de alma, uma excelência a que ninguém consegue ficar indiferente. Ora acontece que, muitos anos depois, conheci a que era então dona do palácio onde Maria Adelaide Coelho da Cunha vivera e de onde fugira, em novembro de 1918, para ir viver com Manuel Claro. Ela tinha 48 anos, o seu antigo motorista 26. A história começa realmente aí. Ora acontece também que, a propósito do mesmo palácio, escrevi um artigo para a Máxima e recebi duas cartas de duas leitoras já com bastante idade, mas extremamente lúcidas, que se prontificaram a contar-me o resto da história daquele casal. Ambas tinham privado com Maria Adelaide, que fora amiga das respetivas famílias, e tinham informações preciosas para partilharem comigo. A somar-se a tudo isso, a então dona do palácio de São Vicente pôs à minha disposição a biblioteca onde, devidamente arquivados e catalogados, se encontravam centenas de documentos encontrados no fundo falso de uma escrivaninha. Alfredo da Cunha, o marido abandonado, coligira tudo o que dizia respeito à mulher que mandara interditar. Era impossível ignorar todo este riquíssimo manancial que vinha assim ter comigo. Foi um trabalho árduo, intensíssimo, um ano e meio a tempo inteiro, mas que me deu uma grande alegria. E não é um romance. É uma biografia, devidamente suportada por factos e por documentação e por testemunhos orais.

O livro reflete uma época?
Necessariamente. Pois se tudo se passa a partir de 1918, era importante equacionar os tempos em que a historia se desenrola. Sem esse pano de fundo, uma biografia perde a sua força, e um pouco até da sua credibilidade, creio. Repare-se neste detalhe: é uma época em que não há censura, portanto Maria Adelaide escreve no jornal A Capital, onde conta a sua odisseia. E Alfredo da Cunha, por interpostas pessoas, responde-lhe no Diário de Notícias, que fora dela, fundado pelo seu pai e pelo seu padrinho. Depois de 1926, a censura volta a vigorar e com toda força, e esta história não poderia ter sido conhecida deste modo. Logo, o desfecho teria sido inevitavelmente outro. Qual? Nunca saberemos.

doida_naoComo define Maria Adelaide?
É uma «Mulher Bandeira» como recentemente Júlia Pinheiro a definiu de forma exemplar. Tudo o que ela quis foi largar uma vida que nada lhe dizia, para viver um grande amor. Mas foi tão acossada, tão maltratada, e sofreu tanto por esse passo que, a partir de certa altura, teve de se defender em público. E fê-lo de uma forma digníssima, mas feroz. A caminho dos 50 anos, sem fortuna, sem nada de seu - nem o nome -, já que os psiquiatras, à cabeça dos quais Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, a tinham declarado «Louca Lúcida», interditando-a, ela consegue vencer tudo e todos.

Esta história revela o poder da imprensa, em que sentido?
Sem uma imprensa livre, a história de Maria Adelaide e Manuel Coelho nunca teria chegado ao grande público. Sem as entrevistas e as reportagens dos jornalistas de A Capital, as pessoas ignorariam que, por exemplo, muitas outras mulheres, donas de grandes fortunas, estavam igualmente sequestradas nos manicómios por… «castigos de família». Ora o conhecimento liberta-nos. E perante o clamor da opinião pública, o exercício da prepotência do poder e dos poderosos teve de encolher as garras. Acrescente-se que os tais castigos exemplares terminavam quase sempre com a castigada a ficar sem os seus bens, que, legalmente, ficavam na posse da mesma família que as tinha confiado àquelas instituições. Tudo com o aval dos cientistas… Falava-se disso, mas era preciso haver um grande movimento que desse a conhecer os meandros destas teias. Também se prenderam homens pelo mesmo motivo (as fortunas), mas em número muito mais reduzido. Isto continuou, depois, mas nada se soube. A censura vigorou - e com muita eficácia - até 1974. Só mais tarde pudemos saber que, por exemplo, presos políticos ou homossexuais eram igualmente confinados às casas de loucos, onde ficavam aos bons cuidados de psiquiatras sem escrúpulos. Em Portugal e em muito mais países, é bom que se saiba.
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