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A maldição da Praça de Lisboa
 
Não guardo boas recordações da Praça de Lisboa.
Em 1973, fui preso ao passar por lá, em frente à Lello, que um cronista avisado do El Pais proclamou como a mais bonita livraria do mundo. Quem me denunciou foi o casaco vermelho aos quadrados, à pescador de Matosinhos, que era a farda dos estudantes de extrema esquerda durante o ocaso da Primavera marcelista.
A ordem de prisão foi dada pelo capitão Braga, que estacionara os “níveas” (alcunha das carrinhas da polícia de choque) e ultimava o dispositivo para a invasão do átrio da Reitoria, átrio onde decorria um comício contra um festival de coros com participação sul-africana.
A culpa foi confirmada pelas pedras que atulhavam os meus bolsos e se destinavam a apedrejar fachadas de bancos, uma acção muito em voga à época e que me pareceu mais excitante que o tépido ambiente do comício, que só aqueceu com a chegada do capitão Braga.
Um árido parque de estacionamento à superfície é a mais antiga recordação que eu tenho da Praça de Lisboa. Depois houve uma tentativa de Belmiro de Azevedo de lhe dar vida, instalando lá um centro comercial. Não deixa de ser curioso que a Sonae, que da Grécia ao Brasil, passando por Alemanha e Itália, promove e gere shoppings florescentes, tenha falhado apenas no coração da cidade que a viu nascer e crescer.
Sei de um projecto, que está enguiçado, de recuperação desta praça que é uma ferida a largar pus mesmo ali ao lado das vibrantes Galerias de Paris. Ninguém me tira que se trata de uma maldição que só pode ter a ver com o nome. Da próxima vez que encontrar o Germano Silva vou sugerir-lhe que apresente na Comissão de Toponímia uma proposta de mudança de nome.

 

Jorge Fiel 


Jorge Fiel cresceu e vive no Porto, onde nasceu, em Maio de 1956. Portista e regionalista. Licenciado em História. Jornalista há 31 anos. A Viva é o mais recente título onde tem textos publicados, uma lista onde convivem vivos e mortos, como o Norte Desportivo, O Comércio do Porto, Gazeta dos Desportos, Jornal do Comércio, Tripeiro, Crime, Expresso, Ideias & Negócios, Diabo, Briefing, Diário de Notícias, Advocatus e O Jogo.

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