Faixa publicitária

António Ferreira

antonio_ferreiraDiscreto líder do Norte

Sustentabilidade é, para o presidente do Conselho de Administração do CHSJ, António Ferreira, a palavra chave de um sistema de saúde “que não nos podemos dar ao luxo de perder”. Para o bem e para o mal, o médico gere, diariamente, uma equipa de 5700 pessoas, procurando mobilizá-las em torno do “orgulho de ser São João”.

“Rápido, vem aí a Guarda [Republicana]!”, gritava um deles, aflito, e todos voavam, que nem “pardais à solta”, em busca do melhor esconderijo. Não havia tempo a perder: andar na rua sem s apatos era proibido e a adrenalina das correrias acabava sempre por se misturar com o medo de que a brincadeira resultasse numa multa endereçada aos pais. O certo é que as travessuras vividas em Cete - uma aldeia situada no concelho de Paredes, a 30 km do Porto – tinham um saborzinho especial. Hoje, à distância de cinco décadas, é quase com o mesmo olhar traquina que António Ferreira, médico de formação e de coração, recorda os seus primeiros anos de vida. Os banhos tomados nas levadas e as engenhosas invenções de brinquedos deram, entretanto, lugar a outras tarefas que desempenha com a mesma dedicação.
Sentado na cadeira da presidência do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de São João (CHSJ) desde março de 2007, coloca o estatuto de “líder” para segundo plano e prefere ser encarado como mais um dos que “vestiu a camisola” com o objetivo de defender as cores do hospital mais eficiente do país, pelo terceiro ano consecutivo.
Os resultados obtidos pela unidade hospitalar nos últimos tempos valeram-lhe a conquista da categoria de administração pública dos Best Leader Awards 2013, atribuídos pela Leadership Business Consulting, mas, para o responsável, de 54 anos, o que interessa mesmo “é que o conceito de liderança esteja ao serviço do corpo do hospital”. “Há uma diferença muito grande entre ser um chefe com estatuto ou ser mais um de todos os que estão mobilizados e com vontade de fazer alguma coisa positiva numa organização”, defendeu. Mobilizar a equipa com paixão e fervor, procurando ser um exemplo e mostrando lealdade e confiança no trabalho desenvolvido, é, por isso, a função assumida, dia após dia, por António Ferreira.

Um hospital que recuperou o “amor próprio”
As alterações que têm vindo a ser introduzidas no modelo de funcionamento do CHSJ surgem, segundo o responsável, de uma revolução maior, operada na atitude dos próprios profissionais. “A grande conquista que o hospital fez foi passar a ter amor próprio. O HSJ era tratado como algo ingovernável e eu acho que os nossos profissionais se envolveram e recuperaram o orgulho em ser São João”, sublinhou, defendendo que a instituição conseguiu “algumas coisas verdadeiramente inovadoras em Portugal”, nomeadamente no que diz respeito aos sistemas de informação, que permitem ter acesso a todos os dados relativos ao que se está a passar no hospital, a cada momento. “Conseguimos saber como estão a funcionar as salas do bloco [operatório], quando é que começou uma cirurgia, quando terminou a ação do cirurgião, o momento em que o doente saiu da sala, enfim, tudo. E, monitorizando, em tempo real, detetamos aquilo que foge ao que é esperado”, explicou.
Aliás, graças a esta capacidade de gerir e interligar os dados, o CHSJ foi recentemente distinguido com um prémio mundial de Inovação em Saúde, devido a uma solução tecnológica desenvolvida para promover a segurança dos doentes internados. O sistema premiado mundialmente – intitulado VITAL (VIgilância, MoniTorização e ALerta) – permite analisar e correlacionar uma quantidade maciça de dados relativos ao estado clínico de cada paciente, que estão dispersos por dezenas de sistemas de informação do centro hospitalar, procurando identificar, categorizar e alertar precocemente as equipas clínicas para pacientes que estejam em risco. Desta forma, a instituição é capaz de “antecipar as entradas em Unidades de Cuidados Intensivos nos sete dias antes de o evento ocorrer”. A capacidade de medir e interligar informações é o segredo mágico utilizado. “Sem medir e sem sabermos exatamente o que estamos a fazer não é possível gerir”, garantiu o médico.
Outras alterações tiveram de ser promovidas para que bons resultados e sustentabilidade pudessem andar de mãos dadas. A organização do hospital em estruturas intermédias, dotadas de alguma autonomia de gestão, foi uma das estratégias implementadas pelo conselho de administração. Para além disso, foi necessário promover “um conjunto enorme de mudanças nas áreas de apoio à atividade clínica”, mais concretamente no modo como se compram, armazenam e distribuem os produtos na unidade hospitalar, e ainda na gestão integrada dos seus equipamentos.

“Fazer mais com menos”
As medidas que afetam a área dos recursos humanos são, como não poderia deixar de ser, as mais “custosas”. Ainda assim, António Ferreira não tem dúvida de que existe um “elevado grau de desperdício” no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, em particular, no CHSJ. “Isto é algo que nós somos obrigados, do ponto de vista ético e cívico, a combater porque é a maneira de, com menos recursos, continuarmos a servir o melhor possível a nossa população”, apontou. “Sem este sistema os portugueses ficarão quase órfãos no que diz respeito à saúde porque nenhum de nós teria condições para pagar estes cuidados se não houvesse o conceito de estado social”, alertou, garantindo que “é possível fazer mais com menos”, se forem introduzidas as reformas necessárias. “Tenho a convicção de que se tivermos profissionais, de todos os grupos, aos quais se dê uma opção – ou trabalham só no sistema público ou no privado, não podendo acumular – conseguiríamos, seguramente, desde que fossemos capazes de implementar sistemas de remuneração baseados numa parte fixa e noutra que dependesse da produtividade e qualidade, ter pessoas mais motivadas”, defendeu. Para o médico, o risco iminente de insustentabilidade do setor de saúde público está a ameaçar uma das “maiores conquistas” de sempre dos cidadãos. “O facto de podermos dizer que o acesso aos cuidados de saúde não depende do potencial económico de cada um é algo que não podemos dar-nos ao luxo de perder”, avisou.
Na verdade, o mal estar social gerado pelas dificuldades económicas sentidas pelos portugueses nos últimos tempos tem vindo a afetar a sua perceção da saúde. Tal como notou António Ferreira, os relatórios internacionais da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) sobre os resultados em saúde, nomeadamente no que diz respeito aos graus de satisfação das pessoas, revelam aspetos “interessantes”. “Os indicadores de saúde em Portugal, comparados com a média da OCDE são, de facto, excelentes”, afirmou, referindo-se, por exemplo, à taxa de mortalidade infantil e por cancro, aos planos de vacinação e à percentagem de pessoas rastreadas em cancro. “Estamos ao nível dos melhores, mas quando vamos comparar a maneira como os cidadãos qualificam o seu estado de saúde, só 49% dos portugueses é que dizem que é bom ou muito bom, comparativamente com quase 90% de irlandeses. Também somos daqueles que se dizem menos satisfeitos com os cuidados de saúde prestados”, informou, revelando que, no entanto, Portugal é, depois, dos países onde as diferenças no acesso à saúde entre os mais e menos ricos são menores. O presidente do conselho de administração do CHSJ acabou por identificar um fator que poderá estar na origem destes dados: o Produto Interno Bruto (PIB) de cada país. “Quanto maior é o PIB per capita mais satisfeitas estão as pessoas com o seu estado de saúde”, concluiu. O responsável considera que a insatisfação dos portugueses também está associada à prática de um sistema de saúde focado nos profissionais e não inteiramente nos doentes. Aliás, essa é uma das transformações que considera fundamental no momento de pensar o hospital do futuro.

Hospital Pediátrico integrado poderá ter “avanços significativos” este ano
Na estratégia de preparação de um centro hospitalar absolutamente focado num bom serviço ao cliente destaca-se um projeto que o HSJ agarrou “com unhas e dentes” e que, segundo António Ferreira, poderá conhecer “avanços significativos” ainda este ano. Em causa está a construção do Hospital Pediátrico Integrado, que mais não é do que uma ala pediátrica “com condições dignas para as crianças, os adolescentes e suas famílias”.
Nesse sentido, a instituição decidiu “envolver a sociedade civil, como se faz, frequentemente, em Inglaterra”, e lançar a já bem conhecida campanha de recolha de fundos “Um lugar pró Joãozinho”, que tem contado com o apoio de figuras públicas das mais diversas áreas, desde a política ao futebol. O conceito de hospital pediátrico integrado surge da ideia de que “a pediatria e a medicina da adolescência” precisam de um “ambiente próprio”. “Não é a criança que tem de ir para o sítio onde está a especialidade; são as especialidades que têm de ir ao local onde existe o ambiente propício para as crianças”, esclareceu o médico, ressalvando que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, esta ala não será independente do hospital geral.
Outro projeto em execução é o da aposta numa abordagem integrada dos edifícios do Hospital de São João e do Hospital de Nossa Senhora da Conceição, em Valongo, no mesmo centro hospitalar. Para evitar a duplicação de serviços, o pólo de Valongo passou a acolher toda a cirurgia de ambulatório. Além disso, será equipado com um centro de hemodiálise capaz de cobrir uma grande área geográfica que necessita desse tipo de cuidados. Até ao momento, os cerca de cem milhões de euros investidos nas duas unidades desde 2005 resultaram da utilização do capital social e de dois projetos: o PORN (Plano Operacional da Região Norte) e Saúde XXI, sendo que o restante foi assegurado por autofinanciamento. “Feitas as contas, este centro hospitalar é credor de uma quantidade de dinheiro que seria suficiente para continuar este projeto sem haver necessidade de pedir subsídios e investimentos adicionais do Estado”, garantiu. “Isto é tanto mais verdade quanto o Estado, ao longo dos anos, ter passado o tempo a fazer orçamentos retificativos, na área da saúde, para cobrir resultados deficitários de uma parte muito significativa de hospitais, sendo que isto é particularmente verdade para a região de Lisboa e Vale do Tejo”, acrescentou o médico, defendendo tratar-se “de uma injustiça regional inaceitável”.

“Chegou o momento de o Porto passar a ser a metrópole” da região
Apesar de passar muito do seu tempo em Ponte de Lima – num terreno carinhosamente partilhado com diversos animais – a cidade do Porto começou a fazer parte da vida de António Ferreira aos cinco anos. Foi com essa idade que, juntamente com os pais (um profissional de seguros e uma dona de casa) e os irmãos, se mudou para o Viso para poder estudar. “Lembro-me que já na quarta classe dizia que queria ser médico. Os meus amigos pegavam comigo, diziam que eu queria era dar injeções nas meninas”, brincou, reconhecendo que nunca ponderou outra profissão. E assim foi. Durante a sua formação passou por estabelecimentos como a Escola dos Quatro Caminhos, na Senhora da Hora, a Escola dos Elétricos, o antigo Liceu D. Manuel II e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), onde se licenciou, doutorou e assumiu o cargo de docente.
A vocação para a área médica é de tal modo intensa que António Ferreira não se imagina a desempenhar outras funções, nomeadamente na esfera política. “Nunca fui convidado para exercer um cargo político. Não sou militante de nenhum partido e não tenho perfil para cargos governativos pelo facto de, em Portugal, não se apresentarem à população projetos políticos claros, transparentes e inequívocos”, afirmou, com convicção. Há oito anos, quando assumiu a presidência do conselho de administração do centro hospitalar, o especialista em Medicina Interna entendeu que não poderia continuar a fazer clínica nem a lecionar na faculdade. Hoje, ambiciona voltar a vestir a bata branca para poder desfrutar de dois dos seus maiores fascínios: o da relação com o paciente e o do diagnóstico. “Ao longo da minha carreira tive experiências de retorno dos doentes para comigo que premeiam muito mais do que o dinheiro que ganhava”, salientou, recordando, por exemplo, o episódio de um paciente que, sabendo que uma irmã do médico (que sofria de paralisia cerebral) se encontrava internada, se disponibilizou a doar sangue e até mesmo um rim, caso fosse necessário.
Em 2016, altura em que termina o mandato do atual conselho de administração, António Ferreira poderá estar de regresso à medicina. “Ficar sempre no mesmo cargo acaba por ser mau para a própria instituição, há que dar lugar a outras pessoas”, defendeu.
A Invicta foi a “casa” onde o médico cresceu como pessoa e como profissional. E é por conhecê-la tão bem que António Ferreira sente que “chegou o momento de o Porto passar a ser a metrópole” da região. “Sem perder a sua essência cultural, a sua maneira de ser, a cidade está a tornar-se cosmopolita”.
Adepto “total e completo” do FC Porto, o responsável é apaixonado pela “cidade antiga”, reconhecendo uma beleza inigualável à zona da Ribeira e da Batalha. Mas há uma imagem que lhe ficará para sempre na memória: o nevoeiro que, em certos dias, pinta de “alma” a ponte D. Luís e “todo aquele casario”. Aos portuenses reconhece “nobreza de caráter”, defendendo que é necessário deixar de “gastar energias” com “inimigos externos, virtuais ou imaginários”. “O Porto deve afirmar-se pelo caráter nobre que lhe é inato e pela sua enorme capacidade de trabalhar e de correr riscos”, sustentou.
Apaixonado pela aventura de conhecer o mundo, o médico admite conviver com a “mágoa” de não ter filhos, canalizando todo o amor paternal para os sobrinhos. Homem “de uma só paixão”, entrega-se de corpo e alma ao que faz. Planos para o futuro? Não, nunca os fez, garantiu, demonstrando que o gosto maior é ver que o caminho se faz caminhando.
e-max.it: your social media marketing partner

Faixa publicitária