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Nuno Botelho

nuno_botelho“O Porto não precisa de se por em bicos de pés”

Nuno Botelho sempre acreditou que o Porto era o local onde, não só ia ser feliz, mas também em que iria crescer profissionalmente. E, recorda, naquela altura a cidade era “diferente”. Ainda assim, não desistiu e venceu. O presidente da Associação Comercial do Porto não concorda com o atual modelo de descentralização e não encara o enorme incremento do turismo de forma negativa. Revê-se em Rui Moreira, mas considera muito prematuro falar numa possível candidatura à Câmara do Porto quando o atual autarca sair. Numa conversa franca com a VIVA!, Nuno Botelho reiterou o compromisso e a luta pela cidade.

Nuno Luís Cameira de Sousa Botelho (Porto, 1973) é licenciado em Direito pela Universidade Católica do Porto e pós-graduado em Banca, Bolsa e Seguros pela Universidade de Coimbra.

Tendo iniciado a atividade profissional no setor bancário, no Banco Mello, a carreira de Nuno Botelho está intimamente ligada ao turismo desde 2000, altura em que assumiu a gestão de clientes da Exponor. Mais tarde, enquanto Adjunto do Vereador do Pelouro dos Recursos Humanos, Desporto, Educação e Juventude, entre 2002 e 2004, coordenou o Gabinete da Câmara Municipal do Porto responsável pela gestão do Euro 2004 – Campeonato Europeu de Futebol. Começou a trabalhar cedo mantendo sempre uma intensa atividade profissional. “Tudo o que fiz, foi baseado em muita dedicação”, confidenciou à VIVA! Nuno Botelho, o homem do leme da Associação Comercial do Porto. Aos 27 anos criou a Essência do Vinho, que tem vindo a crescer progressivamente, projetando não só a cidade, mas também o país.

Sustenta que ainda é muito cedo para pensar numa possível candidatura à Câmara do Porto. “O segundo mandato de Rui Moreira não começou nem há um ano. Por isso é muito prematuro estar a discutir essa possibilidade. Rui Moreira é uma pessoa com quem tenho uma amizade muito próxima. Se estive com ele, em 2013, na luta por um Porto diferente, estarei no futuro ao lado dele na procura dessa resposta. Tendo sempre como objetivo esse Porto livre e independente que ambos queremos e os portuenses, cada vez, mais desejam”, disse.

Está há cinco anos no leme da Associação Comercial do Porto (ACP). Sente que a missão foi cumprida?

Sinto que parte da missão à qual me propus há cinco anos está cumprida, o que não quer dizer que esteja dada por adquirida. Uma das propostas fundamentais pela qual lutei no início do meu mandato foi o rejuvenescimento da ACP, o que efetivamente aconteceu. Basta olhar hoje para a direção da Associação Comercial do Porto, na ordem dos sub-50 anos.

Por outro lado, há uma política de constante abertura à cidade, facto que hoje é inequívoco. Desenvolvemos atualmente imensas atividades com diversas instituições da cidade. E também um maior envolvimento com o empresariado e aquilo que são as empresas.

Olhando para o futuro, tenho sempre em mente fazer mais e melhor. Penso que estamos a implementar essa relação com o empresariado de forma mais sustentada. Basta pensar no investimento que fizemos no final do ano passado, na aquisição de um imóvel na Rua Miguel Bombarda, que vai, no início do próximo ano, dar origem a um centro empresarial que irá acolher cerca de 120 pessoas, o que demonstra maior cuidado e atenção com o empresariado. A defesa dos interesses da região é, também, sempre fundamental para nós.

A conferência sobre alterações climáticas foi um dos grandes momentos representativos dessa abertura à cidade…

A conferência das alterações climáticas foi um ponto alto dos últimos cinco anos. Na associação estávamos a reunir internamente acerca de uma conferência sobre as alterações climáticas. E foi interessante porque tínhamos acabado de discutir isso em sede de direção e tive um encontro, no âmbito da minha vida empresarial, com o Adrian Bridge, da Taylor’s. Ele a meio da conversa revelou-me que iria organizar uma conferência sobre alterações climáticas. Naturalmente disse-lhe que não íamos fazer duas conferências sobre o mesmo tema. E como íamos juntar tudo? Esse foi o desafio… Contactamos, entretanto, a Câmara do Porto e daí resultou a conferência que todos conheceram. Mas isso denota, desde logo, algo importante, o espírito agregador, a necessidade de criar conteúdos que unam as pessoas. E isso é algo que orgulha a nossa associação. Estamos já a trabalhar, numa segunda edição, para o próximo ano. No início de março de 2019 estaremos na Alfândega e no Coliseu.

Porto de Leixões e aeroporto Francisco Sá Carneiro ainda constituem duas preocupações?

Com certeza. É que repare: são as duas grandes plataformas da região. A região vive e desenvolve-se através destas duas grandes infraestruturas. Não adianta ter a melhor universidade, boas vias de acesso, grande atividade económica se não tiver um Porto de Leixões por onde saiam essas mercadorias, que dê resposta à indústria exportadora da região. Já para não mencionar a importância das boas ligações pelo aeroporto Francisco Sá Carneiro. Desta região saem 50% das exportações nacionais. É muito importante a ação, e a pressão, da ACP nestes dois temas.

O turismo é um assunto que divide opiniões. O que a seu ver acha que devia ser feito para melhorar este setor?

De mim não vão ouvir que o turismo é uma coisa negativa. O turismo é algo que está a mudar o país. É uma alavanca fundamental de progresso. Há reabilitação urbana, desenvolvimento económico, abertura de novos negócios, de capacidade de gerar novos trabalhos, de alavancar outras indústrias. Muitos produtores de vinho consideram que o turismo tem feito explodir o consumo de vinho em Portugal. Não se restringe apenas a alojamentos locais ou restaurantes. É muito mais do que isso. São empresas têxteis que vendem como nunca venderam. Metalomecânica, engenharia, arquitetura, construção civil em geral, mas também o agroalimentar. Agora, diabolizar o turismo, recuso-me a fazê-lo porque não podemos matar a galinha de ovos de ouro.

Como enfrentar os desafios para os moradores do centro histórico que sentem receio relativamente ao alojamento local?

De facto, pode haver casos em que isso aconteça. São de lamentar. Mas cerca de 70% do edificado em Lisboa e Porto estava devoluto, quando foi agora reabilitado. É também um pouco falacioso dizer que todas as pessoas tiveram que sair. É que antes, quando saíamos à rua, não tínhamos onde almoçar ou jantar. Não vamos tomar o todo pela parte. Temos que ver tudo em perspetiva. É evidente que necessariamente pode haver casos negativos. Mas também há casos positivos e de pessoas que até saíram voluntariamente, vivendo agora mais confortáveis noutras zonas da cidade. Devemos, no entanto, também estar atentos à noção de descaracterização, que não pode acontecer. Mas por outro lado, é difícil descaracterizar o Porto. Esta cidade é muito sui generis. Tem uma identidade tão própria que seria necessário passarem muitas gerações para que se deixasse descaracterizar seja o que for.

Tendo em conta este forte impacto do turismo foi implementada a taxa turística. O que acha desta medida?

Sou completamente favorável à implementação desta taxa. Para que, no caso do Porto, estas receitas possam ser aplicadas no realojamento de algumas famílias, na melhor e cada vez mais cuidada limpeza urbana, e sei que até ao final do ano isto vai dar uma volta muito grande. Melhorar o policiamento, por exemplo… Os efeitos da taxa turística ainda não se sentem, mas acho que até ao final do ano, início do próximo, vamos sentir essas mudanças de forma muito evidente. E as pessoas vão perceber que aquele dinheiro está a ser bem aplicado na cidade. Algo diferente do que se passa em Lisboa, cuja taxa turística reverte para a realização de eventos, para a gestão de espaços.

Numa entrevista recente ao JN referiu que é mais difícil ser do Porto do que de Lisboa.

Eu nasci no Porto, estudei no Porto, fiz toda a minha vida nesta cidade. E sinto diariamente a enorme dificuldade de se viver no país mais centralizado da Europa, em que todas as decisões são tomadas em Lisboa. Aqui para eu fazer uma proposta de trabalho a alguém, tenho que apresentar muitos melhores argumentos para conseguir ganhar essa proposta face a uma empresa de Lisboa, que a priori já é vista como uma empresa nacional. A minha revista (Revista de Vinhos) é editada a partir do Porto, mas é nacional. Mas ainda assim é vista com cariz regional.

Continua tudo, então, a deslizar para Lisboa?

Claro. Por isso é que temos de estar atentos ao que se passa, analisar a questão da descentralização. E não aceitar qualquer proposta a este nível. Nem aceitar qualquer prato de lentilhas que nos queiram dar. Temos que olhar para o país como um todo. E, desse ponto de vista, acho que os partidos políticos andam muito distraídos. Ainda não perceberam o que se está a passar.

A regionalização ainda faz sentido?

A regionalização faz sempre sentido. Acho que não há condições hoje para a implementar. Desse ponto de vista, já me contentava se numa primeira fase tivéssemos uma descentralização como deve ser.

É impensável a visão do Porto como segunda capital?

Tal como disse anteriormente, não acredito no Porto como segunda capital. Acredito num país de boas e confortáveis cidades médias, um pouco ao exemplo do que acontece na Holanda ou na Bélgica. O país tem que se desenvolver harmoniosamente como um todo. Se Évora for mais forte do que é hoje, o Porto vai ganhar com isso. O Porto não precisa de se por em bicos de pés e dizer que é a segunda cidade, a segunda capital.

Concorda com o que está previsto para a expansão da rede de metro do Porto?

Concordar, concordo… na medida em que sou a favor de investimento para a região. Não o rejeito mas o que tenho dito relativamente a isso é que, de facto, a linha Rosa, entre a Casa da Música e São Bento, proposta pelo atual Ministro do Ambiente, é um prémio de consolação para a cidade. Acho que seria mais benéfico pensar no fecho do anel Matosinhos Sul, Foz e Campo Alegre. Essa linha, que está devidamente programada, e projetada, não saiu do papel. Deveria já ter sido feita.

A Essência do Vinho é a maior realização do setor em Portugal. Fale-me um pouco da iniciativa e que futuro antevê para ela…

A Essência do Vinho é muito mais do que a realização do evento. Começou por ser, em 2004, um evento, é verdade. Mas é hoje uma marca que promove e divulga o vinho e a gastronomia portuguesa em Portugal e no mundo. Estivemos em cerca de 15 países. Organizamos mais de 60 ações promocionais de vinhos e gastronomia portuguesa. Passaram no ano passado mais de 600 mil pessoas pelos nossos eventos. Interagiram connosco nas redes sociais mais de três milhões de pessoas. A Essência do Vinho é uma marca à qual juntamos este ano a Revista de Vinhos. Extravasou muito daquilo que era em 2004, uma ideia inovadora que alcançou grande sucesso. A Essência do Vinho tornou-se um dos grandes eventos da cidade do Porto. E é hoje um dos principais certames de vinhos na Europa. Ajudou também a alavancar a cidade, e o país também.

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