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Gimba

gimba3“Descobri a minha praia”

Gimba, este “alfacinha sorridente, um autêntico trovadeiro acusticurbano que assina canções em português bem escorrido”, regressa aos discos já esta sexta-feira, com o Ponto G! Ponto de partida para uma agradável conversa com o artista fundador dos históricos Afonsinhos do Condado.

Enquanto produtor, Gimba trabalhou com Tim, Deolinda, Boss AC ou José Cid. Fez, inclusive música para programas de televisão (“O Cabaret da Coxa”, “O Homem que mordeu o cão”, “Estado de Graça”, “Donos disto Tudo”). Também assinou bandas sonoras de programas de humor (“O Programa da Maria”, “Paraíso Filmes”, “Boa Noite, Alvim”), cinema (“O Crime do Padre Amaro”, etc), e produziu ainda repertório infantil (“As Canções da Maria”), além de vários trabalhos em rádio, teatro e publicidade.

Com muita estrada na bagagem, continua fiel ao seu formato preferido – guitarra acústica e voz – e ao ecletismo que sempre o caracterizou.

O leque de 11 canções vai da simples balada até ao rock de barba dura, mas sempre com um traço comum – uma toada bem disposta e moderadamente irónica, com letras cativantes em português “bem escorrido”. Os seus temas vão da crítica social à canção de amor, sendo o maior deles, Lisboa, a sua cidade.

gimba1Tudo isto está bem patente neste "Ponto G", cujo lançamento é já esta sexta-feira, que coincide também com os quarenta anos de música (!) do Gimba. Especial atenção para a música "Vá lá!!", cantada bem alto pela voz de 12 ilustres convidados (de "A" – Ana Bacalhau, a "Z" – António Zambujo), um manifesto algo panfletário, brindando “à revolução e à anarquia”! É também dedicado à memória do grande amigo do Gimba: Zé Pedro.

A paixão pela música começa cedo. Houve influência de alguém em particular?

Não tive influência de alguém em particular. Tive, sim, uma boa educação em casa. O meu pai ouvia jazz. A título de exemplo, a primeira música que me lembro de ouvir é o “Take Five” do Dave Brubeck. Eu fui aluno de primária no tempo do Salazar, mas frequentei, curiosamente, uma escola muito avançada que era um pouco experimental e que fazia boas experiências pedagógicas. Era o centro infantil Helen Keller. Na minha escola havia muita música. Os meninos tinham aulas de educação musical, tinham que medir compassos, bater tempos, etc. Também havia aulas de piano. Tudo isso ajudou a estimular, juntamente com a paixão pela música, que qualquer criança, qualquer miúdo tem. Lembro-me que a minha irmã, três anos mais velha, tinha discos do Johnny Hallyday. Depois apareceram os Beatles. Na altura a rádio também foi importante, com o programa “Em órbita”. Era a minha “formatação” musical.

afonsinhosOlhando para a sua carreira, são inúmeros os projetos marcantes. Afonsinhos do Condado ou Irmãos Catita são apenas alguns exemplos. Comecemos pelos ‘Afonsinhos’. Como e quando nasceu este grupo?

O grupo, com esse nome, nasceu por volta de 1985. É um trio, que depois ao vivo tinha várias formações. Mas a base era o trio, que era eu, o Jorge Galvão e o Nuno Faria. Mas antes de serem três, éramos apenas um duo: eu e o Jorge Galvão. Este projeto inicial chamava-se “Tiroliro e Vladimir”. Esse grupo iniciou a sua atividade musical em 1978, daí a minha celebração também de 40 anos de carreira enquanto músico. Não são quarenta anos de discos. O meu primeiro álbum é de 1987.

Esse duo tocou muito, fez muitos bares. O público naquela altura tinha mais abertura para apreciar. Hoje em dia as pessoas gostam mais de ouvir grandes êxitos. O ambiente era diferente. Toquei com o Jorge de 1978 a 1985. Um dia convidamos o nosso amigo Nuno. Como ele era do jazz, apanhava as coisas à primeira. Foi convidado num espetáculo e desde aí ficou. Nunca mais se foi embora (risos).

O humor, a sátira, eram o mote?

O resultado é que nós, sendo pessoas bem dispostas, a nossa mensagem só poderia ser positiva, alegre, bem-disposta. Na altura que tínhamos o duo “Tiroliro e Vladimir” tínhamos uma espécie de slogan que era “música para divertir”.

E por acaso eu e o Jorge Galvão estamos a reviver esse duo. Ainda ontem [quarta-feira] tivemos um espetáculo em Águeda (risos). Estamos a reviver essas músicas que ainda nem chegaram a disco. Estamos a gravar e até tentar chegar a um álbum com esse material que é a “pré-história” dos Afonsinhos.

irmaos_catitaRelativamente aos Irmãos Catita foi um seguimento natural aos Afonsinhos do Condado?

Nos anos 90 fiz projetos musicais e televisão. Os Afonsinhos não acabaram. O que aconteceu é que nos anos 90 houve uma crise terrível no mundo da música. Acabamos por suspender a atividade pois já se tornava difícil o caminho. Fizemos, sim, uma licença sem vencimento. E portanto o grupo parou, sem zangas. Eu quase de imediato transitei para o programa “Pop Off“ na RTP. Essa aventura do “Pop Off” durou dois anos. Nessa altura eu era um super fã do Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000. O Manuel na altura começou a descobrir os seus alter egos. Num projeto mais fora do baralho [Irmãos Catita] convidou-me. Gostei imenso de fazer, pois voltamos ao registo café-concerto, que era algo que eu tinha saudades. Não era compositor, era um dos acompanhantes. Sentia-me bem nessa altura com esse papel. Tinha menos responsabilidade. Era mais fácil, digamos assim. Mas o grupo também acabou por crescer e gravar discos, a fazer espetáculos grandes.

A solo lançou um álbum precisamente há 20 anos, “Funky Punky Trunky". Segue-se agora o segundo em nome próprio, o “Ponto G”. O que podemos esperar deste registo discográfico?

Podemos esperar uma identidade revelada. Posso-lhe dizer que o disco de 1997 não me traz até grandes recordações. Na altura eu não me tinha encontrado. Só há poucos anos é que descobri a minha praia, que é algo acústico, um registo de cantautor, já um bocadinho distanciado dos ambientes do rock. O disco espelha o meu ecletismo. Mas a raiz de tudo é a voz e a guitarra. É um disco exequível apenas com guitarra, absolutamente a solo.

gimba_cdE sempre com letras bem escorridas….

Isso é uma particularidade. Há inclusive certos artistas que admiramos, caso do Jorge Palma ou do Mário Mata. Ou, por exemplo, mais recentemente os Virgem Suta ou Diabo na Cruz, cantam o português sem espinhas. Eu tenho muito cuidado quando junto a letra e a música. É como o vinho: se escorrega ou não escorrega (risos).

Começou em inglês, mas rapidamente migrou para a língua de Camões. O que o levou a tal decisão? Vê vantagens na pop em língua portuguesa?

Quando era mais miúdo ouvia o rock que toda a gente ouvia. Pink Floyd, Frank Zappa, Genesis. Tudo bandas da nossa altura. Mas também se ouvia muito o José Mário Branco, o Sérgio Godinho e muito Chico Buarque e Caetano Veloso. Se reparar nas canções em inglês, são um bocadinho “blah, blah, blah”. Quando é na nossa língua, parece que vai mais à nossa alma. O léxico do inglês nas canções pop e rock é pequeno. Eles usam muito as mesmas palavras. E é por isso que o inglês soa muito familiar. Não é que o inglês seja uma língua pobre, que não o é. Mas no universo pop rock o leque fica curto. Já a nossa língua é um bocado ao contrário. Nós temos muitas palavras para dizer a mesma coisa. Temos uma graduação de adjetivos que ajudam ao que a pessoa quer dizer. Entra mais dentro da alma.

O que é que começa primeiro, a letra ou a melodia?

O José Mário Branco diz que o ideal é virem as duas ao mesmo tempo (risos). Mas varia…

Foi padrinho de batismo dos Xutos e Pontapés. Pode-nos contar um pouco melhor essa história?

Em 1977 o Zé Pedro fez um interrail. Foi um festival de punk que houve em França. Nesse ano, o punk tinha explodido em Londres e tocaram lá todos os grupos dessa fase, menos os Sex Pistols. A nata do punk estava lá. Os Clash, os The Damned… E o Zé Pedro ficou muito impressionado, no bom sentido, com aquilo. Chegou a Lisboa e quis fazer uma banda punk.

gimba2E o resto é história…

Nós éramos amigos. E acompanhamos aquela mudança de estatuto hippie para punk (risos). Aquilo era a revolução. E pronto, nasceu ali um grupo no café, que não era só da boca para fora. O projeto chamava-se “Beijinhos e Parabéns” e aquilo foi crescendo. Escrevíamos umas letras na mesa… Já tinha definido as funções de cada membro. Quando aquilo começou a ganhar uma forte proporção e iríamos brevemente a começar a tocar e ensaiar, havia lá um rapaz que tinha inventado o nome do grupo. Um dia começou a ver aquilo a agigantar-se e disse que queria ficar com o nome para fazer um projeto diferente. O Zé Pedro ficou um pouco destroçado. E no meio da conversa eu disse-lhe o seguinte: “deixa lá estar, não é ‘Beijinhos e Parabéns’ é ‘Xutos e Pontapés’”. Na altura estava na moda a dança do punk rock, que era empurrões, pontapés… O Zé Pedro gostou imenso do nome. E ficou até hoje (risos).

Participou no “Pop Off”. Como descreve essa experiência? Há alguma história caricata?

Eu acho que não tinha jeitinho nenhum para aquilo (risos). Empurraram-me de repente para a frente de uma câmara, a fazer entrevistas a figuras importantes do nosso meio. Apesar de o programa ter ficado com o estatuto de culto, trazendo uma estética nova, eu lembro-me que me sentia atrapalhado a fazer as entrevistas. Aquilo não era o meu meio. A minha recordação é obviamente boa, pois tivemos momentos incríveis.

Agora, quanto a um episódio caricato, foi com uma entrevista ao Rui Reininho. Nessa entrevista a certa parte falou-se em corte de cabelo e ele disse que não tinha dinheiro para ir cortar o cabelo e eu dei-lhe 500 escudos. Depois a entrevista acabou e o produtor dele, um senhor da Valentim de Carvalho, ficou furioso (risos).

Trabalhou com artistas variados, fez música para programas de televisão e também assinou bandas sonoras de programas de humor. O que se segue?

Eu, neste momento… isto é quase uma resposta à José Sócrates… estou concentrado na produção deste meu disco. Mas o que se segue é ter planos e concretizá-los. Enquanto o público está a ter este disco eu já estou, como os criadores de moda, a pensar na próxima criação. Mas não vou já levantar o véu…

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