BPI

António de Sousa Pereira

António de Sousa Pereira

Reitor da U.Porto aposta na internacionalização e na investigação

Um ano volvido desde a sua posse, António de Sousa Pereira, o novo reitor da Universidade do Porto, assentou parte do seu trabalho, com reconhecido sucesso, na internacionalização e investigação. Com 31309 alunos, dos quais 5918 internacionais, e mais de 240 cursos disponíveis, no ano letivo 2018/2019, aquela que é considerada uma das mais prestigiadas universidades do país, procura assumir, cada vez mais, um percurso que vá muito para além da sua dimensão nacional. Exemplo disso foi a sua candidatura, recentemente aprovada pela Comissão Europeia, para criar uma das primeiras 17 alianças de Universidades Europeias, a iniciativa comunitária que pretende ser o primeiro passo na construção de um Espaço Europeu da Educação.

A VIVA! esteve à conversa com António de Sousa Pereira, que, gentilmente, nos abriu “as portas da sua casa” e falou sobre as importantes conquistas deste último ano, traçou os planos para o futuro e abordou, ainda, as grandes vantagens da U.Porto…

Ser hoje reitor de uma universidade tão prestigiada como a do Porto presumo que seja muito diferente e muito mais exigente do que era no passado, porque as próprias universidades mudaram. São hoje mais dinâmicas, mais atrativas e com uma clara aproximação à sociedade académica. Como vê essa transformação?
As universidades hoje não podem ficar resignadas a ter apenas um papel regional. Acho que o grande desafio é dar este salto e pôr, quer as faculdades, quer os serviços administrativos, a pensar que o objetivo é sermos uma universidade internacional. Claro que o panorama regional é obviamente importante porque a universidade tem que ser um fator de desenvolvimento regional e local. Agora, também o será tanto melhor quanto mais forte for, também, a sua rede de relações internacionais.

”Os alunos formados na nossa universidade têm uma enorme aceitação, não só no mercado de trabalho nacional, mas também no internacional”

De que forma é que a U.Porto abre as portas da sua casa para receber os seus alunos, nacionais e estrangeiros?
A U.Porto tem feito um investimento muito grande na captação de estudantes internacionais. E isso tem-se traduzido naquilo que é o fator mais óbvio, o aumento de alunos. Acho que foi a vinda de estudantes estrangeiros para o Porto, e o “passa a palavra” que eles fizeram, que foi o indutor de transformação que a cidade sofreu e a causa da imensidão de turistas que hoje estão no Porto. E, portanto, estes estudantes estrangeiros contribuem muito para aumentar a qualidade de vida dentro da cidade. Torna a cidade mais cosmopolita, mais diversa, mais uma cidade do mundo e não tanto uma cidade fechada sobre si mesma.

E como é que a U.Porto encontra soluções para alojar os novos estudantes?
Não tivemos grandes apoios da parte do Governo na atribuição de edifícios que fossem passíveis de ser utilizados para construir residências universitárias, mas encontramos outras alternativas. Fizemos parcerias com a Messe dos Sargentos, com a Misericórdia, e com outras entidades para aumentarmos a oferta de alojamento a estudantes bolseiros. Além disso, o mercado privado de habitação para estudantes no Porto cresceu muito, de forma que este ano letivo a cidade vai ter, seguramente, para cima de 1500 camas, e no início do próximo mais de 2500, relativamente às que existem hoje no mercado.

Além da chegada dos alunos estrangeiros, a internacionalização faz-se, também, de parcerias, como é exemplo o programa das “Universidades Europeias”. Que impacto teve, e terá, essa seleção para a universidade?
Vai ter um impacto muito grande, porque vai instituir com um intercambio que é mais largo que aquilo que era habitual no Programa Erasmus. Vamos ter intercâmbio de estudantes, de professores, de pessoal administrativo e, além disso, queremos que os estudantes incorporem a ideia de que entram numa universidade para circular entre os vários campus e contactar com realidades diferentes daquelas que há no país onde estão. Por isso, acho que vai ter um impacto fundamental na vida da universidade e espero que, daqui por uns anos, ela esteja realmente diferente daquilo que é hoje.

O fluxo de mobilidade será, então, ainda maior…
O objetivo é que, daqui por três anos, 50% dos estudantes das cinco universidades do consórcio [U.Porto, Universidade Paris-Saclay (França), LMU Munique (Alemanha), Universidade de Lund (Suécia) e Universidade de Szeged (Hungria)] estejam em mobilidade. Isto não significa que todos os estudantes tenham que ir para os outros países, mas que os estudantes contactem com professores dos outros países. Continuaremos a estimular a mobilidade física de estudantes, professores, técnicos e ‘staff’, e vamos, inclusive, reforçar o financiamento disponível para essa mobilidade, mas temos formas inovadoras que visam que o estudante contacte com outros ambientes de ensino.

A par disso, a universidade destaca-se, também, pelos brilhantes resultados das suas unidades de investigação. Quarenta das suas 49 unidades tiveram as classificações máximas de “excelente” ou “muito bom” na mais recente avaliação plurianual da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Qual é a importância desses resultados para a universidade?
Demos início, neste último ano, a um trabalho de reorganização de rede de investigação que começa a dar resultados. Nós temos 49 unidades de investigação, que são muito assimétricas em termos de dimensão, de importância, e até mesmo do resultado obtido na avaliação da FCT. Portanto, o nosso objetivo, agora, é reorganizar algumas delas e penso que, ainda este mês, vão ter notícias de três grandes laboratórios da universidade que se vão fundir para instalar um ainda maior.

“Foi a vinda de estudantes estrangeiros para o Porto, e o «passa a palavra» que eles fizeram, que foi o indutor de transformação que a cidade sofreu”

Essa é uma das perspetivas para o futuro?
Sim. O futuro passa por reorganizar a rede, fazer economias de escala, juntar unidades de maneira a obter massa crítica e trabalhar para que estas se posicionem cada vez melhor nos ‘rankings’ e sejam cada vez mais competitivas na angariação de projetos, sejam eles nacionais ou internacionais.

“As Universidades hoje não podem ficar resignadas a ter um papel regional. O objetivo é sermos uma universidade internacional e que quer estar nos panoramas internacionais”

Em relação à entrada dos alunos no mercado de trabalho, considera que os que se formam nas universidades portuguesas são bem preparados?
Os alunos formados na nossa universidade têm uma enorme aceitação, não só no mercado de trabalho nacional, mas também no internacional. E, portanto, quero crer que eles têm uma formação muito boa, porque se não tivessem isso não acontecia. Basta olharmos para a enorme quantidade de jovens que frequentaram as universidades portuguesas, e a do Porto em particular, e que se encontram espalhados pelo mundo e a ocupar posições de destaque, para deduzirmos que a qualidade da nossa formação é muito boa.

As universidades estão, então, a preparar bem os estudantes para o mercado de trabalho?
Estão, mas isso é um assunto que é complicado. Preparar bem hoje não significa preparar bem para amanhã. Atualmente as coisas evoluem a uma velocidade tal, que aquilo que nós estamos a fazer bem hoje, se fizermos da mesma forma daqui por dois ou três anos, provavelmente será mau. Acho que mais importante do que ficarmos satisfeitos com o facto de, agora, estarmos a fazer bem, é termos a preocupação de nos adaptarmos constantemente às suas exigências e ter a capacidade para modificar os nossos métodos de ensino e os objetivos para nos adaptarmos às suas necessidades em cada momento, que hoje variam muito rapidamente.

E quais são as grandes vantagens da U.Porto em relação às restantes universidades do país?
A U.Porto é, neste momento, uma universidade internacional, que tem investigação de elevada qualidade e que procura ter um relacionamento com a envolvente local e regional, determinante para fazer a integração dos estudantes.

Como é que gostaria de ver a universidade daqui por três anos quando terminar este seu primeiro mandato?
Gostava de ver consolidado este projeto de internacionalização, e, sobretudo, a reorganização da nossa rede de investigação e um maior comprometimento entre esta e a rede de ensino. Acho que são aspetos que vão ser determinantes nos próximos anos.

Iniciou-se um novo ano letivo. As portas da universidade voltaram a abrir-se para milhares de estudantes. Que mensagem gostaria de lhes deixar?
De que a universidade não é apenas um local de aprendizagem. É, também, um local onde eles podem evoluir como cidadãos plenos, do ponto de vista cultural, do ponto de vista social e do ponto de vista desportivo. Portanto, deve ser encarada como um veículo para formar melhores cidadãos e, da nossa parte, vamos fazer isso. Vamos procurar dar-lhes uma formação integral. Não apenas uma formação académica, porque isso é o mais fácil, mas procurar formá-los como cidadãos em todas as vertentes. É essa a mensagem que eu acho que temos que lhes deixar, além de lhes garantir que a universidade se orgulha deles e tem a noção que tem uma enorme responsabilidade ao receber uma grande parte dos melhores alunos do país.

“A universidade não é apenas um local de aprendizagem. É, também, um local onde os alunos podem evoluir como cidadãos plenos, do ponto de vista cultural, do ponto de vista social e do ponto de vista desportivo”

Texto: Maria Inês Valente
Fotos: Marta Santos

Viva! no Instagram. Siga-nos.