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Estrela Novais

Estrela Novais
Quando vem ao Porto há rituais que não dispensa. “Vou sempre dar um passeio pela Ribeira e, em dias de sol, sento-me numa esplanada para comer uma patanisca de bacalhau com um copo de vinho”. A tradicional francesinha da «Regaleira» e os filetes de pescada do «Aleixo» são, para a actriz, petiscos imperdíveis. “Adoro tripas e francesinhas mas só no Porto”, garante.
As visitas são, agora, mais escassas mas sempre que o trabalho lhe permite ou se encontra perto, dá cá “um salto”. A visão que tem do Porto à distância assemelha-se a um “quadro”, muito familiar e que lhe traz saudade.
De acordo com Estrela Novais, o inconformismo e a frontalidade são características dos portuenses que ainda se mantêm. “São as pessoas que fazem a cidade”. As principais diferenças que aponta entre o Porto do passado e o de hoje prendem-se com aspectos físicos e culturais. “A cidade está mais limpa e bonita, europeia”, garante, salientando que se emocionou quando assistiu, pela televisão, à cerimónia que deu início às comemorações do Porto Capital da Cultura. “Pensei que, humildemente, também fiz parte de um processo que aí culminava e que valera a pena. Senti muito orgulho e chorei”. Para a actriz, o Porto também cresceu a nível cultural. “Hoje temos o Teatro Nacional de S. João, várias companhias e escolas de teatro, de música, Serralves, a Casa da Música, uma série de locais culturalmente dinâmicos”.

O Porto do passado
A actriz tem recordações marcantes da Invicta. A mais forte que guarda da infância prende-se com a memória das luzes e das montras de Natal. “Ainda tenho uma foto que tiraram ao meu pai na Rua de Santo António (hoje 31 de Janeiro) com as iluminações de Natal”, conta. A primeira viagem num «trólei» desde Gaia (onde residiu durante muitos anos) até ao Porto está também muito viva no cantinho das recordações. “Foi uma novidade nos transportes”, recorda. Dos tempos da adolescência destaca as farturas nas Fontaínhas, o fogo de artifício nas festas de S. João, jogar matraquilhos e andar de carrossel com os amigos, visitar os museus ao domingo, pedir fotos dos cantores que estavam na moda na Vadeca. “Os professores não gostavam que eu as colasse nas capas dos meus cadernos”, diz. São vários os momentos que nunca esquecerá: o primeiro emprego na livraria Argus, aos 14 anos, os amigos e colegas do Instituto Superior de Contabilidade, os cafés Novo Mundo, Aviz, Estrela e Magestic, onde estudavam à noite, a estreia como actriz no Teatro Experimental do Porto, aos 17 anos, o baile de finalistas no Instituto Comercial e de “sonhar, sonhar!”. No Teatro de S. João, assistiu a um dos filmes da sua vida – “Isadora Duncan”. “Foi um dos que mais me marcou até hoje, quer pela biografia, quer pela magnífica interpretação de Vanessa Redgrave”.

E assim nasceu uma «estrela»
O gosto pela representação surgiu muito cedo, por volta dos quatro anos. “Tinha aparecido a televisão e eu delirava com as imagens e as vozes dos actores. Quando regressava a casa isolava-me no meu quartinho e imitava o que ouvira mas numa linguagem inventada, já que não sabia uma palavra de inglês. Exprimia qualquer coisa de “americano”, recorda com humor. Aos sete anos, quando foi baptizada, tomou consciência que adorava projectar a voz quando recitou o Credo. “O gosto manteve-se e passei à descoberta da poesia na escola primária, seguindo-se no ensino secundário uma febril procura de textos para representar com os meus colegas. Fazia tudo: escrevia, dirigia, inventava os figurinos, escolhia as músicas e representava. Recordo que fiz um grande sucesso como Diabo no «Auto da Alma» de Gil Vicente”.
Do que é que a actriz abdicou e do que necessitou para triunfar? “Na área artística, o triunfo é permanecer na profissão, no meu caso já são 40 anos de carreira. Não se abdica de nada quando escolhemos o nosso caminho mas, à época, foi um desgosto para a família”, recorda. É difícil resistir como actor no Norte, o que não impede de conciliar com trabalho em Lisboa. “O ser conhecido passa, hoje, até por fazer publicidade a um detergente. Uma coisa é ser-se conhecido, outra é ser-se reconhecido, o que demora muitos anos e, por vezes injustamente, não acontece”.
Entrou no teatro profissional aos 17 anos, sem formação, só com o prazer de representar e a intuição. Passados dez anos, sentiu necessidade de começar do zero e partiu para Roma com uma bolsa da Gulbenkian para frequentar a Accademia Silvio D’Amico, onde fez o curso de encenação. Permaneceu como bolseira em Itália por três anos, tendo estudado com grandes nomes da cena italiana, nomeadamente Vittorio Gassman, Eduardo de Fillipo, Andreia Camilleri e Dario Fo.
Foi co-fundadora da Companhia Seiva Trupe no Porto onde participou, entre 1974 e 1987, em diversas peças de encenadores como João Guedes, Júlio Cardoso, Pere Panella, Norberto Barroca, Júlio Castronuovo, António Montez, Mário Barradas, e Fernando R. Umaña. Em 1980 integrou o elenco de «Saudades para Dona Genciana» e «A Culpa» de António Victorino D’Almeida. Em 2004 participou em «Esquece tudo o Que te Disse» de António Ferreira e «A Noite da Iguana», de Tennessee Williams, em cena no Teatro do Bolhão, em 2007.
Desde a década de 90 que se dedica quase exclusivamente à televisão, onde tem participado em diversas séries, nomeadamente «A Viúva do Enforcado», «Felizmente Há Luar», «Na Paz dos Anjos», «Vidas de Sal», «Polícias», «A Grande Aposta», «Olhos de Água», «O Último Beijo», «Amanhecer», «A Ferreirinha», «Dei-te quase Tudo», «Doce Fugitiva», «Feitiço de Amor», «Deixa que te leve».

A mulher
Mantém o gosto pela representação e vai continuar. “O meu trabalho é a minha paixão e a representação a minha vida. Sem trabalhar entro em depressão. Falta-me o público, a procura da personagem, a inquietação, a dúvida, a busca do quase absoluto”, diz. E por isso, quase nunca tem férias. “Um actor está permanentemente a observar, a decorar sons, cores e cheiros. É a nossa escola, uma profunda deformação profissional. Quase um detective espiando o ser humano, para depois mostrar, representar”, assegura. O cinema é a sua área de eleição. “É a possibilidade de mostrar com um simples olhar e sem palavras os mais diversos sentimentos”. São várias as personagens que lhe deu prazer interpretar. “Todos os papéis que me assustaram, que me desafiaram, e ainda bem que foram muitos”. Lida bem com o reconhecimento do público, embora por vezes fique atrapalhada com algumas reacções. “Sinto que tenho outra família. Gosto do carinho, dos beijinhos, das palavras ternurentas, de saberem o meu nome, de identificarem personagens que representei e fico particularmente sensibilizada quando dizem: «gosto muito de a ver trabalhar»”. Recebe muitas cartas, beijos, pedidos de autógrafos e flores. Para fugir ao stress vai ver o mar, gosta de cozinhar e isola-se a ver filmes. “Compro, alugo e fico triste, triste, quando surge o FIM”.
A actriz, que diz ter na tolerância a sua maior virtude, é professora no ensino secundário e lecciona a disciplina de Interpretação integrada no Curso Profissional Artes do Espectáculo/ Interpretação.

Discurso directo
Filme: O Piano, de Jane Campion
Livro: A Dor, de Marguerite Duras
Flor: Rosa chá
Viagem de sonho: China
Um odor: o cheiro de um homem a fazer a barba; Alecrim
Pensamento: Saúde
Cor: Vermelho
Lugar: Piazza Navona, Roma
Clube do coração: Vilanovense e Futebol Clube do Porto
Projecto inadiável: Viver
Figura da cidade: Manuel de Oliveira e Júlio Resende
Porto: Saudade; Vulcão

Texto: Marta Almeida Carvalho
Revista VIVA! – Edição Junho 2010

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