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Isabel Pires de Lima

Isabel Pires de Lima
Nasceu em Braga, onde viveu até aos 17 anos, altura em que se «transferiu» para o Porto para tirar o curso de Filologia Românica na FLUP. A integração não foi difícil e dos seus tempos de faculdade recorda as tertúlias nos cafés, os movimentos culturais e uma relação de grande proximidade dos estudantes universitários com os professores. “Hoje sinto-me mais portuense do que bracarense”, confessa, destacando o carácter genuíno da cidade e dos seus habitantes. “Agrada-me o facto de o Porto ser uma grande cidade em termos de personalidade e pequena em espaço físico. Apesar da dimensão tem ainda um carácter muito humano”, sublinha. “Tem uma luz particularmente bonita, especialmente a névoa, que se enquadra na perfeição com o granito da arquitectura patrimonial”, refere, destacando igualmente o rio como um ex-libris. Tem um carinho especial por Serralves e pelo Centro Português de Fotografia – que considera um espaço fantástico por estar situado na antiga Cadeia da Relação – e agrada-lhe particularmente a Baixa e o centro histórico. “Gosto muito de ir às tasquinhas da zona histórica. São absolutamente maravilhosas”. Para a ex-ministra, o bairrismo ainda é uma virtude. “Numa altura em que a tendência é de estandardizar, o Porto mantém uma identidade distinta que se afirma pela diferença. São as pessoas que dão vida à cidade e nos portuenses distingue características que lhes são inerentes. “Para além do seu léxico muito próprio, são acolhedores, abrem facilmente as portas de casa aos amigos, são sinceros, genuínos e bem-humorados”, diz, salientando que o humor é fundamental na vida. “A vida sem humor deve tornar-se muito chata”, refere, divertida, confessando que por vezes também lhe saem alguns palavrões à boa moda do Porto. “Ainda que seja uma cidade mais pequena, comparativamente a Lisboa, tendo piores empregos, piores salários e menos equipamentos, penso que temos melhor qualidade de vida. Estamos mais próximos da família e dos amigos”, sublinha. Adepta do exercício físico, gosta de fazer caminhadas à beira-rio e mar, ver exposições, cozinhar e conviver com os amigos.  

Das Letras à política
A literatura e as artes visuais, sobretudo pintura e fotografia, são os domínios que mais aprecia. Licenciada em Filologia Românica, com o doutoramento em Literatura Portuguesa, na vertente do romance do século XIX, mais propriamente sobre Eça de Queirós, Isabel Pires de Lima soube, desde muito jovem, o que não queria seguir. “Medicina estava fora de questão e literaturas anglo-saxónicas também”, mas hesitou entre as românicas e as ciências sociais. “Hoje, a literatura faz parte da minha vida, é indissociável”, garante. Apesar de nunca ter sido uma militante acérrima – pertenceu ao Partido Comunista nos anos 70 e 80 e nunca esteve, nem está, filiada no PS – a política entrou muito cedo na sua vida. “Em minha casa sempre se falou abertamente de política e de religião mesmo nos tempos em que não se podia“. Os pais eram politizados, particularmente o pai, ateu e republicano convicto. “Frequentou a Universidade de Coimbra nos anos 40 e conviveu com diversas correntes de contestação ideológica e cultural ao Estado Novo”. Com o 25 de Abril de 74, a intervenção política passou a fazer parte do quotidiano. “Para a minha geração, que viveu o 25 de Abril com 21 anos, era impensável declinarmos responsabilidades relativamente à vida política”, refere, sublinhando que vê, com muita pena, elementos dessa geração demitirem-se, hoje, do exercício da cidadania e terem, tendencialmente, educado os filhos numa alienação relativamente ao conceito de «comunidade». Em 1974 entrou para a FLUP como assistente e a vida académica sempre a fez manter um contacto estreito com a política, tendo procurado sempre estabelecer uma relação entre o trabalho e a vida da cidade. Foi desta circunstância, e do facto de ter sido deputada, que mais tarde surgiu o convite para fazer parte do governo. “Narciso Miranda era presidente da distrital do PS/Porto e perguntou-me se estaria disponível para uma conversa. Pensei que me iriam convidar para ser mandatária de qualquer coisa”, conta, admitindo que acabou por apanhar “um susto”. “Um convite para integrar as listas de deputados nunca me tinha passado pela cabeça”, admite. Declinou o convite mas, nos dias seguintes, o PS acabou por estabelecer um cerco à sua volta, ao que acedeu. Na sequência desta passagem de cinco anos pelo Parlamento, foi o próprio José Sócrates que a convidou para integrar o executivo, como independente, com a pasta da Cultura. “Foi uma surpresa ainda maior do que a primeira já que não tinha com ele nenhuma relação estreita. Por vezes falávamos de poesia mas nada mais”, confessa. “Tive um momento de hesitação, o pânico só vem depois”, refere com humor.   

Desafio de cidadania
Depois da hesitação resolveu aceitar aquilo que sentiu como um “desafio de cidadania”. Foi um dos elementos mais populares do governo, como as sondagens o demonstraram, e protagonista de algumas decisões que originaram momentos fulcrais no campo cultural. “O arranque da Fundação Casa da Música, o acordo para fixar a Colecção Berardo em Portugal e a constituição do Museu do Douro, que se arrastava há décadas, trouxeram a cultura para a ordem do dia”, salienta. O Plano de Reforma da Administração Central do Estado (PRACE) que foi posto em prática no seu ministério também serviu para lhe dar alguma visibilidade. “A reforma implicou incómodo em alguns sectores e, ao mexer com as corporações, os jornais interessam-se por nós”, refere, salientando que, geralmente, os ministros da Cultura não têm peso político, fruto da sua “insignificância orçamental”. Foi uma gestão difícil, sobretudo pelo orçamento reduzido de um ministério tão abrangente. “Orgulho-me da forma como o geri, embora as verbas sempre tivessem obrigado a grandes contenções e sempre no fio-da-navalha”, sustenta. O desempenho de um cargo no poder autárquico jamais lhe passou pela cabeça mas “em política não se pode dizer nunca”. E, se pudesse, o que faria já pela cultura do Porto? “Abria um concurso público para a gestão do teatro Rivoli”, admite, salientando que não é o facto de ser gerido por uma entidade privada que a preocupa já que essa é uma opção camarária perfeitamente legítima. “O que não acho legítimo é entregá-lo a uma gestão que nos dá sempre mais do mesmo. Um teatro municipal não pode ser monolítico na oferta cultural”, garante.  

Discurso directo
Um lugar – Porto da Cruz (Madeira)
Uma viagem de sonho – Deserto de Atacama (Chile)
Um livro – O próximo
Uma música – Variações Golderg (Bach)
Um filme inesquecível – E La Nave Va (Federico Fellini)
Um projecto inadiável – Publicar um livro
Clube – FC Porto
Uma figura – Eugénio de Andrade
Porto – Granito

Texto: Marta Almeida Carvalho
Revista VIVA! – Edição Dezembro 2010

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