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Maria da Fé

Maria da Fé

Já envolvida no espírito natalício, Maria da Fé recorda os natais da sua infância e a “reunião da família, sempre com o bacalhau e as rabanadas”. “Com o pouco que tínhamos, fazíamos muito. Havia amor e carinho”, garante.
Para a fadista, o melhor do Porto são os habitantes. “São pessoas verdadeiras, com um carisma muito próprio”, salienta. Os símbolos que destaca são a Torre dos Clérigos e a Igreja da Trindade, numa cidade que está muito mais “moderna e cosmopolita” do que era nos seus tempos de menina. A morar em Lisboa desde os 18 anos, altura em que rumou à capital para ter um acesso mais alargado às oportunidades profissionais, não vem ao Porto tantas vezes quantas gostaria e, quando isso acontece é, geralmente, em trabalho. “Ainda tenho cá os meus irmão e outros familiares”, diz.
As tripas à moda do Porto e as papas de sarrabulho são rituais que não dispensa quando está no Porto. “É pena que as nossas tripas não tivessem sido eleitas como uma das sete maravilhas da gastronomia portuguesa”, lamenta, garantindo que aqui são cozinhadas “como em nenhum outro local do país”.

Destino: fado
Prometeu cantar “até que a voz lhe doa” e esta é uma “promessa” para cumprir. “Acaba por não ser uma promessa mas antes uma certeza. Cantarei enquanto gostar de me ouvir. Sou muito perfecionista e exigente comigo mesma”, assegura. A aventura no mundo da música era um sonho que tinha desde a infância. “Comecei a cantar na escola. Os meus pais gostavam muito que o fizesse. Cantava em concursos que tinham lugar no Palácio de Cristal organizados pelo Domingos Parker e pelo Jornal de Noticias”, conta a artista, que adotou o nome artístico por se considerar uma mulher de fé. “Já havia uma artista com o nome de Maria da Conceição e na altura não podia haver dois artistas com o mesmo nome. Penso que como mulher de fé que sou, era este nome que melhor me distinguia”, diz.
Começou a sua carreira com nove anos de idade, altura em que venceu alguns dos concursos em que participou. Foi aí que consolidou a certeza quanto à sua carreira musical, que se foi tornando numa “realidade cada vez mais presente com o passar dos anos”. Apesar de ter cantado outros estilos, o fado é o que mais gosta e onde se sente “mais verdadeira”. Aos 18 anos mudou-se para Lisboa porque era lá que estavam praticamente todas as oportunidades a nível profissional, tendo sido, quase de imediato, contratada para cantar em diversas casas de fado e no Casino do Estoril.
O seu primeiro disco é de 1959 e a partir de então nunca mais parou de cantar. Temas como «Valeu a Pena», «Fado Errado», «Vento do Norte», «20 Anos», «Cantarei Até Que a Voz Me Doa», «Divino Fado», «Portugal Meu Amor» ou «Senhora do Tejo» são, entre outros, os seus grandes sucessos. Questionada sobre qual a canção que mais gostou de interpretar, a fadista não especificou nenhum tema, garantindo que só canta aquilo de que gosta e sente.
Em 1963 lançou uma experimentação musical – o pop-fado – que teve algumas criticas dos mais tradicionalistas. “O pop-fado foi uma experiência em que, além da guitarra portuguesa, havia a guitarra eléctrica e a bateria do José Duarte (um grande nome do jazz em Portugal) e onde o ritmo era diferente do tradicional. A projeção foi enorme, nomeadamente na comunicação social, e só me trouxe notoriedade”, recorda.
Em 1968 casou com o poeta José Luís Gordo, seu atual marido, que a tinha como uma “musa”. “O meu marido é o meu maior crítico. É uma pessoa muito sensível, um poeta. Ele é também uma fonte de inspiração para mim. Tenho a certeza que continuo a ser a sua musa de sempre”, garante, salientando que a maior parte dos poemas que canta são da autoria do marido.

50 anos de carreira no fado
Maria da Fé, uma admiradora de Amália Rodrigues, foi a primeira fadista a participar num Festival RTP da Canção, em 1969, com o tema «Vento do Norte». “É uma canção com um significado muito forte e que agradou bastante ao público”, diz, salientando a importância que esta participação trouxe à sua carreira. Importante também foi a participação num filme protagonizado pelo ator americano Robert Wagner, onde interpretou dois dos seus maiores sucessos – «Cantarei Até Que a Voz Me Doa» e «Portugal, Meu Amor». “O filme foi visto a nível mundial, por isso muitas pessoas, de uma maneira ou de outra, ficaram a conhecer-me”, refere.
Em 1975 inaugurou o restaurante “Sr. Vinho”, na velha tradição das casas de fado e que se tornou num dos mais importantes espaços culturais da cidade. Na década de 1980, Maria da Fé tornou-se numa das poucas artistas portuguesas a levar o fado até ao Brasil, tendo atuado nas principais casas de espetáculo do Rio de Janeiro e de São Paulo, e sido homenageada pelo prestigiado cantor e compositor Caetano Veloso, no seu álbum «Língua Portuguesa». “Uma homenagem feita pelo próprio é uma grande honra. É uma pessoa pela qual nutro grande estima e amizade. Tive a alegria de cantar no Canecão, no Rio de Janeiro e no Palace de São Paulo e em muitas outras cidades”.
A atribuição da Medalha do Mérito Cultural, como reconhecimento por uma carreira de mais de quarenta anos, e de outras condecorações importantes como a Cruz de Mérito da Cruz Vermelha Portuguesa e a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa foram de extrema importância mas a que lhe deu mais orgulho foi receber a Medalha de Ouro da cidade do Porto. “Não desvalorizando as outras medalhas, como a de Ouro da cidade de Lisboa, aquando da comemoração dos meus 50 anos de carreira, a do Porto tem um significado especial”, garante. Maria da Fé foi, ainda, distinguida com o Prémio para a Melhor Intérprete Feminina de 2006 pela Fundação Amália Rodrigues, que, diz “tem um sabor a fado”.
Em 2009 celebrou 50 anos de carreira com dois espetáculos nos Coliseus de Lisboa e Porto. Para além da atividade profissional, a artista é uma apreciadora de cinema e teatro, tendo como principais interesses “as causas humanitárias, sobretudo com crianças. “Têm todo o meu apoio”, garante. Maria da Fé considera que foi uma «mãe-galinha» e que se tornou ainda mais «galinha» depois do nascimento das duas netas. “A partir do momento que fui avó, tornei-me muito mais sensível aos problemas das crianças”, conta, salientando que problemas como o abandono e a solidão dos idosos também a sensibilizam.

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