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Micaela Oliveira

Micaela Oliveira
Sonhos de Glamour

Atenta ao ritmo e ao dinamismo da sociedade, cujos pormenores absorve, a cada dia, para enriquecer os seus trabalhos, Micaela Oliveira é já considerada uma referência na criação de vestidos de alta-costura, tendo revolucionado a moda nupcial. A sua principal motivação, essa, é simples: transformar os sonhos das mulheres em realidade.

De sorriso rasgado, postura correta e ainda a dar os últimos retoques ao cabelo, entrou, descontraidamente, numa das salas do Palácio do Freixo, onde já se encontravam duas “musas” vestidas com marcantes exemplares de alta-costura. À sua chegada, uns segundos de silêncio da equipa, entre cabeleireiro, maquilhadora e fotógrafo. Aí está a Micaela. A partir de então, luz, câmara, ação, dando-se início a uma produção fotográfica – protagonizada pelas manequins Grace e Lúcia – e interrompida a cada instante, sempre que os vestidos assim o exigiam. Conhecida do grande público como a criadora de vestidos de gala das mais mediáticas figuras da televisão portuguesa, de que são exemplo Cristina Ferreira, Diana Chaves e Rita Pereira, Micaela Oliveira, de 36 anos, tem objetivos bem definidos e reconhece que a sua marca é, hoje, «muito apetecível», unicamente devido ao trabalho desenvolvido nos últimos anos. «As coisas foram acontecendo de uma forma muito natural. Nunca foi pensado, foi a consequência do meu trabalho que me levou ao sítio onde estou e não a vontade de chegar a um determinado ponto», admitiu.
Natural da Trofa – onde se encontra o seu ateliê – a criadora assume-se como uma mulher «simples, prática, lutadora» e, acima de tudo, «persistente». Aliás, sublinhou, é essa teimosia, em doses equilibradas, que a faz «lutar mais pelas coisas», sem se deixar abater.

Uma infância «no meio dos trapos»
Ainda que não tenha idealizado, desde logo, uma carreira profissional na área da criação de moda, Micaela Oliveira cresceu num ambiente ligado à costura, absorvendo alguns ensinamentos da mãe, responsável pela elaboração das coleções de criança de uma empresa, que acabou por encerrar. «Depois disso, começou a fazer vestidos de noiva. Como cresci no meio dos trapos, a ver a minha mãe criar, absorvi esse espírito, mas sempre fui muito autodidata», sublinhou, revelando que, com apenas 14 anos, foi confrontada com um «enorme desafio». «Gostava muito de trabalhos manuais, de bordar à mão e a minha prima pediu-me para ser eu a bordar o vestido de noiva dela», contou. «Foi uma responsabilidade muito grande que despertou em mim o gostinho pela alta-costura», reconheceu.
Mais tarde, apesar de ter enveredado pela área da Economia, um acontecimento – o nascimento da filha – viria a mudar-lhe completamente o rumo da “história”, levando-a a optar, em definitivo, pela alta-costura. O vestido de noiva bordado para a prima é, assim, recordado como uma criação especial. Contudo, para Micaela, o primeiro vestido que concebeu inteiramente ficará ara sempre como um dos mais arcantes. «Em algumas situações, corei na altura em que fui etregar os vestidos, por serem criações minhas. Às vezes, o valor monetário não é suficiente para que possamos deixá-las partir. Lembro-me perfeitamente de ir entregar o primeiro vestido de noiva criado e executado por mim. Ia no carro e chorei o tempo todo. A noiva estava linda, mas foi a primeira vez que eu deixei a obra sair-me das mãos e foi um misto de emoções», contou. Nesse momento, Micaela Oliveira percebeu que, de facto, é «uma criadora», atenta à personalidade da cliente, ao evento que a mesma vai ter, à sua envolvência e ao que ela pretende transmitir, já que a moda é, acima de tudo, «uma forma de comunicar».

O Porto como fonte de inspiração
E é com o Douro ao alcance do olhar, através de qualquer uma das janelas do emblemático Palácio do Freixo, obra do conhecido arquiteto Nicolau Nasoni, que Micaela admite ter uma «intensa ligação» à cidade onde vive atualmente. «Para um criador é importante estar inserido num meio que o inspire. Como vivo na Foz, tenho o privilégio de ter o rio mesmo ali ao lado, o mar e o elemento água, que é fundamental para mim», confessou, acentuando a beleza «extrema» da cidade que agora é sua. «É um espaço muito cosmopolita, com muita atividade», referiu, acrescentando que, para além disso, é evidente a diversidade de estilos que se podem observar no mesmo local. «Sentamo-nos num banco, em qualquer zona da baixa, e conseguimos observar estilos completamente diferentes. É muitas vezes aí que encontro inspiração, para além das viagens que faço normalmente, das visitas a feiras de tendências de moda e da pesquisa de materiais», afirmou. Assim, fruto daquilo que observa e consome da própria arquitetura da cidade, o trabalho desenvolvido pela criadora consegue ser «glamoroso», de estilo barroco, mas também «minimalista». As coleções são idealizadas de acordo com as  suas inspirações e, a partir daí, o segredo está mesmo nas características físicas e emocionais de cada cliente. «Crio as estruturas, os cortes que considero tendência, mostro-os às minhas clientes mas, depois dessa fase, é desenvolvido um trabalho muito mais direcionado, pormenorizado e exclusivo para cada pessoa», explicou. Uma breve conversa é suficiente para que Micaela Oliveira consiga percecionar os objetivos das mulheres que a procuram. «As minhas clientes precisam de se sentir bem, especialmente numa ocasião como a do casamento. Por isso, analiso automaticamente os aspetos físicos dos quais devemos tirar partido e aqueles que devemos atenuar. Além disso, percebo qual é a sua forma de estar, se são descontraídas, se têm uma autoestima elevada ou não e trabalho para que se sintam confortáveis», sublinhou.
Permanecer atenta «àquilo que a sociedade pede» é, para a criadora, uma obrigação constante. Desta forma, além de absorver todas as «experiências» que o Porto lhe dá, a cada dia, a estilista não prescinde de apostar em cursos de formação que possam, de algum modo, ajudá-la a melhorar a sua técnica profissional. No entanto, com uma agenda repleta de compromissos «que são para cumprir!» – garantiu – a criadora nem sempre consegue finalizar as formações a que se propõe. «Ainda estou inscrita no curso de Estilismo, da Escola de Moda do Porto, mas como não consigo finalizar, a escola vem dar formação à minha empresa, a todos os colaboradores», referiu, sublinhando que «um criador tem de estar em constante aprendizagem». Além disso, está também a frequentar, neste momento, um curso de desenho, confessando-se igualmente adepta da pintura. Aliás, já teve oportunidade de “fazer o gosto à mão” na parede do quarto infantil lá de casa, decorando-a com uma série de princesas.

«Revolucionar» a moda nupcial com o trunfo da exuberância
Para Micaela Oliveira, as noivas demonstram uma grande curiosidade pelos seus vestidos devido ao caráter inovador e arrojado que procura imprimir nos seus trabalhos. «Eu fui revolucionária na moda nupcial. Quis criar um certo ‘show off’, um espetáculo na moda nupcial, que habitualmente é clássica, e fiz um desfile muito arrojado com semi nus, causando uma espécie de rutura. Percebi que era preciso fazê-lo e, por isso, conjuguei materiais nobres com outros mais usuais, criei peças quase impensáveis e apercebi-me de que as pessoas realmente compravam. Senti que havia uma falha no mercado e que faltava alguma exuberância na moda nupcial», descreveu.
A reação do público à “provocação” da estilista foi visível a nível nacional e internacional. «Como comecei a criar por sentir uma falha de exuberância, automaticamente fui transportada para mercados que a pedem, como Angola, que tem um poder económico interessante», notou, contando que, nos últimos meses, foi convidada para fazer um desfile privado no Epic Sana Luanda Hotel, assim como para encerrar o Belas Fashion Week e o Moçambique Fashion Week. Para conseguir dar resposta a todas as solicitações que lhe foram chegando, a criadora teve de estender os seus pontos de venda, fazendo chegar os seus vestidos ao Brasil, ao Líbano e a Angola, por exemplo. A nível interno, não só está a ser procurada por diversas lojas de todo o país como reconhece, com orgulho, estar encarregue de vestir as figuras de que mais gosta: Mariana Monteiro, Diana Chaves, Rita Pereira, Sónia Araújo, Lúcia Garcia e Cristina Ferreira, entre outras. «São pessoas que têm um posicionamento que lhes permite escolher o criador que quiserem e se me escolheram é porque há alguma diferença, o que me deixa muito lisonjeada», confessou, acrescentando que tudo tem de ser gerido ao máximo pormenor devido à exposição mediática a que estão sujeitas.

«O que mais me fascina é o sonho»
No universo da alta-costura, aos seus olhos indissociável dos conceitos de sensualidade e requinte, o que mais fascina a criadora é o sonho. «As mulheres que me procuram sonham estar muito bonitas numa determinada altura da vida e eu tenho essa capacidade. Elas vêm até mim porque acham que eu tenho o poder de as transformar em princesas. Fico muito feliz com isso», reconheceu. Mas desenganem-se os que pensam que Micaela Oliveira apenas desenvolve vestidos de noiva e de cerimónia. «As mulheres dos jogadores de futebol, por exemplo, usam muito fatos de treino e eu também os faço porque elas querem marcar a diferença. Não querem comprar mais uma peça feita em série, querem algo exclusivo, um fato de treino com um corte fantástico, arrojado, num material que normalmente não é utilizado. Querem andar cómodas, bonitas e diferentes. E eu trabalho também para elas», referiu.
Para além disso, a criadora tem uma linha masculina, ainda que não tão explorada. «É algo em que talvez venha a apostar: numa linha de homem e de sapatos», revelou, defendendo, no entanto, que cada criador deve ser especializado e ter um conhecimento profundo da sua área para que as coisas funcionem. De resto, o maior desejo de Micaela Oliveira é o de ser feliz e «agarrar as oportunidades», continuando a trazer contos de fadas à vida das suas mulheres que a procuram.

No Porto
Gosta do rio e do mar, da Foz e dos percursos a pé na zona da Ribeira, onde faz as suas caminhadas e a sua introspeção. A parte cultural é também destacada pela estilista que vê na rua de Miguel Bombarda um nicho de galerias com exposições e atividades “muito interessantes”. O Palácio da Bolsa, com o seu “lindíssimo” salão Árabe, a Igreja do Carmo com os “magníficos” azulejos – que podem vir a inspirar uma das suas coleções futuras – a igreja de S. Francisco e a torre dos Clérigos foram os monumentos que destacou. Aliás, da rua dos Clérigos guarda algumas memórias, percorridas na infância quando acompanhava a mãe às diversas retrosarias que por lá existiam. Dos portuenses gosta da frontalidade, da gastronomia destaca as “deliciosas” tripas à Moda do Porto, embora também seja uma adepta de francesinhas.

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