Recheio

Nuno Cardoso

Nuno Cardoso

“A cultura no Porto é de excelência”

Ator e encenador e, agora, com a responsabilidade de ter que gerir uma estrutura como o Teatro Nacional São João, Nuno Cardoso garante que o trabalho será de continuidade ao dos seus antecessores. Em conversa com a VIVA! falou sobre o seu percurso como profissional, do papel desta estrutura na cidade e no amor que sente por uma terra que, não o tendo visto nascer, já entende como sua.

Foi numa viagem a caminho do Porto, com a companhia Ao Cabo Teatro, depois de uma digressão em Lisboa, com três projetos, que Nuno Cardoso recebeu a notícia da sua nomeação para diretor artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ). Em funções desde o início de 2019, admite que o convite “foi uma surpresa”. E se, por um lado, ficou “extremamente contente”, não pela dimensão da tarefa em si, mas sim, por ser o Teatro Nacional São João, ao qual tem “uma ligação uterina”, por outro, admite ter ficado, também, “muito preocupado”, pela responsabilidade que viria a ter, porque ser diretor artístico do TNSJ é, como explica, ter várias facetas. Por um lado, é ser o criador e o programador residente, mas, também, a pessoa que dirige a equipa técnico-artística do teatro. E, tudo isso, o coloca sempre numa posição, “que é a de provocador de diálogos com a cidade, com os artistas, com o país e de mediador e de servidor público em todos os seus aspetos”.

A temporada de 2019 foi, ainda, elaborada pelo seu antecessor, Nuno Carinhas, o que o atual diretor artístico do TNSJ confessa em muito o ter ajudado, uma vez “que não se pensa ou repensa uma criação destas” assim tão facilmente. O ano corrente manter-se-á com uma programação ligada às companhias e a coproduções, “com alguma internacionalização no final de 2019”, sendo, portanto, “um ano de continuidade”.

Por sua vez, 2020 já ganhará outro carácter, dentro daquilo que até aqui tem sido feito, uma vez que é, também, o ano do centenário do Teatro Nacional São João. Nessa altura, Nuno garante que “haverá um reforço da ideia do que é um teatro com três casas”, ou seja, “estabelecer pontes, ou potenciar as que já estão estabelecidas, em termos de digressão, em termos de coproduções e em termos de programação e projeção internacionais”.

Mas, claro, sem nunca esquecer que um teatro nacional “é o primeiro responsável da reserva da língua portuguesa, seja na sua expressão seja na sua criação dramatúrgica”.

Questionado pela VIVA! Nuno Cardoso desenvolveu algumas das novidades.

Haverá uma aproximação maior da cultura à cidade?
O TNSJ já caminha lado a lado com o Porto desde sempre. Todos os conselhos de administração, todos os diretores artísticos que me antecederam já o fizeram e fizeram-no bem. Portanto, aqui a questão já nem é tanto a responsabilidade de criar algo de novo, mas sim de estar à altura das pessoas que me antecederam, e nomes tão fortes como Ricardo Pais, Nuno Carinhas, José Wallenstein e Francisca Carneiro, na gestão deste teatro.

O TNSJ vai apoiar as companhias de teatro nacionais com a divulgação dos seus espetáculos?
A ideia é continuar a apoiar, o que não significa aumentar a quantidade. Significa depurar a qualidade. O teatro nacional é um parceiro artístico que entra em diálogo com essas estruturas e procura desenvolver um projeto de programação nacional em que elas são parte integrante e valorizada.

Estão previstos intercâmbios entre companhias de teatro nacionais e estrangeiras?
Sim, isso é uma prática constante do São João e que continuará. Aliás, nós temos sempre esse objetivo, o de ser um parceiro privilegiado da criação portuguesa, que no Porto é de excelência, mas também de se mostrar a si e aos outros no mundo e de trazer o mundo até ele.

Relativamente à complementaridade do TNSJ com iniciativas da Câmara Municipal do Porto, Nuno Cardoso não tem dúvidas de que esta deve ser total, uma vez que, de alguma forma, a sua função é semelhante: servir a cidade. Embora no caso de um teatro nacional seja a de servir, também, o país, não se pode esquecer-se que este está situado no Porto e, por isso, “essa complementaridade, a proximidade, a ideia de projeto para com os públicos tem que ser partilhada”. As apostas na formação de novos públicos, como sublinha, são constantes e é um trabalho que o São João faz desde sempre, motivos pelos quais continuarão, uma vez que o objetivo da atual direção é continuar a potenciar a herança artística do Teatro.

É difícil ser ator?
Ser ator é difícil, ponto final. É difícil enquanto profissão, porque é pouco recompensada e isso é tão difícil no norte como no sul. Uma pessoa é capaz de reconhecer um bom gestor de um banco, mas é incapaz de perceber que um ator, que ganha infimamente menos, trabalha e estuda tanto para ser tão bom a fazer o que faz. O esforço que um ator tem para ler um alexandrino do século XVI, vertê-lo em emoção e devolvê-lo ao público para que ele, no século XXI, o perceba é tido como um divertimento. Portanto, ser ator é difícil, é difícil porque os atores são sempre vistos como cigarras e desvalorizados como tal, mas os atores são, acima de tudo, grandes formigas.

E como ator e encenador que, também, é, Nuno Cardoso conhece, melhor do que ninguém, a sensação de “estar do outro lado” da cortina. Fala do teatro com um amor e uma ternura imensuráveis, tanto que deliciou a VIVA! ao ouvi-lo falar.

Como ator, cada vez que começa o aquecimento para um espetáculo tem “medo de não sentir medo”, sendo essa a sensação que espera continuar a ter sempre, “medo de não ser e de não ter autocritica suficiente, de não estar suficientemente presente para dar ao público aquilo que é necessário”. Já como encenador, costuma dizer que um projeto no qual trabalha “está pronto quando adormece num ensaio”, ou seja, quando permite que o cansaço o vença. E o que sente quando chega o momento da estreia é puro encantamento!

“O que acontece num espetáculo é sempre muito mais do que o previsto nos ensaios, do que o previsto na ideia que me levou a escolher um texto ou que me levou a escolher um grupo de trabalho”, razão que o enche de “prazer e humildade”, porque “um espetáculo, por mais que seja assinado por si, nunca é seu. E quanto mais deixa de o ser, mais fantástico é”, diz com um sorriso no rosto.

O atual diretor artístico do TNSJ não esconde o amor que tem por esta cidade, que, embora não o tivesse visto crescer, já é, também, a sua terra. “Não sei falar à Porto, imito de uma maneira muito ridícula, mas gosto da atitude do Porto e gosto do céu do Porto”, confessa. Já gostava nos anos 90, quando o Porto era uma cidade vazia e escondida. “É a minha terra”, reforça.

“Eu andava perdido em Coimbra, encontrei o teatro, profissionalizei-me porque encontrei um conjunto de pessoas que, comigo, apostou num caminho inaudito naquela altura, depois quando saí deparei-me com o Auditório Carlos Alberto, que se transformou em TECA, e que me preencheu a vida, depois encontrei o Ao Cabo Teatro e, agora, surge este convite. Portanto, não posso deixar de me sentir afortunado!”

Sobre o amanhã, e a marca que poderá deixar tanto no TNSJ como na cidade, Nuno garante “não pensar nessas coisas porque “são perniciosas”. Só pensa em “deixar a camisola em campo”, algo que acontece em todos os projetos em que se envolve. E o TNSJ, naturalmente, não será exceção.

Como tudo começou…

“Relativamente tarde” e “por acaso”, em Coimbra, através de um evento criado e dirigido por Ricardo Pais, em que viu várias peças de teatro e ficou “espantado” com aquilo que os seus olhos contemplaram. Estava a estudar Direito e sentia-se “um bocadinho perdido”, o que o levou a inscrever-se num curso de iniciação ao teatro do CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra. “Passadas duas horas do primeiro workshop, fiquei tão entusiasmado que tinha a sensação de que era aquilo que eu queria fazer sempre, que tinha encontrado um caminho”.

Já no final do curso, recorda-se de estar a ensaiar com o Paulo Lisboa, a pessoa que, admite, de facto, lhe abriu este horizonte, quando um encenador alemão foi ver a peça e lhe “achou piada” e propôs fazer uma audição para a Cornucópia. Logo a seguir, começou a trabalhar com o Teatrão, “uma jovem estrutura naquela altura”, e depois rumou ao Brasil, juntamente com o CITAC, onde encenou a peça “I Love You Maria” a partir de “A Mulher Só”, de Dário Fo. Fruto do convívio e da vontade que muita gente tinha de “descobrir o teatro naquele curso”, Nuno e alguns amigos formaram uma companhia profissional, a Visões Úteis, e aventuraram-se pelo Porto, onde acabaram por estrear a peça “Criadas”, no Teatro Sá da Bandeira. E foi a partir desse momento que, efetivamente, se começou a imaginar como ator “e fazedor de teatro de forma profissional”. “Fomos uns inconscientes numa altura em que a inconsciência ainda era permitida”, salienta, com um brilho no olhar.

O TNSJ pelos olhos de Nuno Cardoso

Situado no coração da cidade do Porto, o Teatro Nacional São João é considerado monumento nacional e um dos edifícios mais emblemáticos da cidade. Como destaca o seu atual diretor artístico “é um teatro com três casas” – “uma mais de reportório, que é o São João; outra de experimentação, que é o Teatro Carlos Alberto (TECA) e uma casa mais de criação, que é o Mosteiro de São Bento da Vitória, onde está o centro de documentação e as salas de ensaios, etc”.

Estrutura integrante da União de Teatros da Europa, uma organização que congrega alguns dos mais importantes teatros públicos do espaço europeu, tem já um papel estabelecido na sua missão.

“É um teatro que se pretende como um teatro de criação que, de alguma forma, gere a possibilidade de residência de criadores, no sentido de que essa criação tenha continuidade e possa fugir ao fenómeno da mera apresentação”, sendo que, nesse sentido, “deve estabelecer pontes com a cidade, mas também com a região envolvente e com todo o país”.

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