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Os Engraxadores do Porto

Os Engraxadores do Porto

Apesar das aparentes semelhanças entre os dois engraxadores, há um aspecto que os torna distantes: os anos de experiência na arte de engraxar. No mesmo pedaço de chão, em frente ao McDonald’s dos Aliados (antigo café Imperial), estão pousadas as escovas de José Gesto, já com 45 anos de ofício, e de José Alexandre, engraxador há pouco mais de um mês.

“Quando eu tinha 13 anos, o meu pai pôs-me a ser litógrafo, mas eu raramente aparecia ao trabalho às segundas-feiras”, contou José Gesto à Viva, enquanto olhava para as mãos manchadas de negro. “O patrão chamou o meu pai à atenção e ele deu-me uma tareia em casa”, prosseguiu. “Não queres a arte, pois não? Então vais ser engraxador”, acrescentou, recordando as palavras do pai.
Foi deste modo que o jovem Gesto, na altura com 14 anos, trocou uma arte por outra, instalando-se junto ao antigo café “A História” para começar a escrever uma experiência como engraxador.

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Profissão “digna” e por isso “respeitada”

Ao longo dos anos, José Gesto viu muitos colegas de profissão abandonarem o ofício. “Antigamente havia mais engraxadores. As barbearias, por exemplo, tinham engraxadores e havia neste portal [nos Aliados] seis cadeiras que também eram ocupadas por nós. Ali na Rua Sampaio Bruno havia outro, aliás, ainda lá estão as cadeiras”, assegurou.

Hoje são quatro ou cinco os “homens da graxa” que se encontram na zona dos Aliados, pelas manhãs. “O senhor Américo Amorim comprou o prédio todo, na altura em que o McDonald’s era ainda o Café Imperial, e pôs os engraxadores cá fora sem nada”, lamentou José Gesto. “Ficamos na rua, por isso, aqui estou”, disse com um sorriso.

No entanto, a boa disposição do engraxador esconde momentos passados de luta por um desejo que nunca se concretizou. “Há uns anos escrevi uma carta ao Fernando Gomes, [então presidente da Câmara Municipal do Porto], a dizer que eu e os meus colegas não nos importávamos de pagar uma licença desde que nos dessem condições, um lugar onde pudéssemos estar como há em Lisboa, por exemplo”, referiu José Gesto. “Só que mais tarde recebi uma carta a dizer que era impossível fazer uma coisa dessas em plena baixa”, revelou, acrescentando que já não vale a pena continuar a tentar.

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“Se chover? Se chover não há nada para ninguém, faz-se amor”, gracejou José Alexandre, que recorreu ao ofício para garantir o pagamento das suas despesas. Se os dois engraxadores concordam que esta é uma profissão em risco, há também consenso em relação ao respeito que ainda lhe é atribuído. “É respeitada. Às vezes aparece um ou outro freguês um pouco chato, mas eu deixo-o a falar sozinho”, revelou José Gesto, que já teve Luís Filipe Menezes sentado na sua cadeira. “É uma profissão digna por isso tem de ser respeitada”, rematou Alexandre, que selecciona a obediência e o respeito ao
cliente como as principais características de um engraxador.

“Trocava de profissão?”

As escovas continuam a trabalhar sobre os sapatos na Avenida dos Aliados, mas com a desilusão no rosto de quem as segura. “Peço a Deus para nunca ver um filho ou um neto neste ofício. Como já tenho tantos anos disto, estou habituado, mas para os meus filhos não”, afirmou o engraxador mais experiente, que se arrepende de ter trocado a litografia pelas caixas de tinta. Também José Alexandre teria traçado outro percurso de vida. “Se pudesse escolher teria seguido química”, afirmou, inspirando-se, talvez, no seu único filho, engenheiro.

Os dias vão, no entanto, passando para estes resistentes que, a dois euros por par espelhado, vão conseguindo “juntar umas coroas”, ao som dos desabafos dos fregueses. “Os clientes desabafam e então quando há futebol nem se fala!”, garantiu José Gesto, benfiquista de coração. “Às vezes eles vêm cá só para pegar comigo quando o Benfica perde. E quando ganha vêm na mesma para eu pegar com eles”, referiu. Sobrevive, assim, o velho ofício do engraxador, pelo menos enquanto houver futebol para comentar.

Mariana Albuquerque

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