Pingo Doce

Rui Reininho

Rui Reininho
O Porto é a cidade onde cresceu e viveu as suas maiores experiências. Morava próximo ao Campo 24 de Agosto, frequentava a Avenida Rodrigues de Freitas – a rua das Belas Artes – onde fez as suas amizades e teve as primeiras namoradas. “Adorava as miúdas de Artes, eram excêntricas”, conta. A Baixa, mais propriamente a zona do Coliseu, Maus Hábitos – onde ensaiou diversas vezes – o Escondidinho, o Olímpia e o Piolho são locais de referência que lhe despertam saudade. Recorda os anos 70 como os mais activos devido aos vários conflitos ideológicos que se faziam sentir um pouco por toda a cidade. “Lembro-me bem das consequências dessas intervenções. Era engraçadíssima essa «guerra civil familiar»”. De acordo com o artista, a Baixa era um local cheio de vida que proporcionava convívios muito «freak».Tem saudades da juventude, quando se considerava indestrutível, apesar de ser mais feliz agora. “Deixei de ser tão ansioso e aprendi a ser mais controlado e equilibrado. Mas continuo a achar que sou um «ganda maluco»”. Grande parte dessa transformação advém da sua ligação às medicinas alternativas e à entrega à meditação, num espírito muito «zen».

Rui Reininho considera que tudo na vida tem de ser conquistado. “Os jovens têm de viver intensamente, a vida é que é o verdadeiro desporto radical. A Geração SMS não me cativa. A essência está no convívio entre as pessoas”.   

Porto de conquistas

Para Reininho Porto é sinónimo de conquistas. “Daqui saiu o primeiro manifesto contra a escravatura e a pena de morte, a luta contra o Absolutismo, o Cerco do Porto”, recorda. Actualmente, considera que o portuense se deixou desarmar. “Perdemos o poder reivindicativo e já estamos a sofrer com o erro de canalizar tudo para a capital”, admite o cantor que sempre se assumiu como anarquista. “Tenho as minhas convicções. Sou um low profile, odeio propaganda política”.  
A desertificação do centro histórico entristece-o. “As casas estão devolutas, o comércio – que era vivo e forte – está, agora, a morrer. Andar na Baixa é quase como fazer uma peregrinação”, refere, alertando para as transformações que a cidade tem vindo a sofrer nos últimos anos. “A Praça da Liberdade, os Aliados e a Cordoaria estão terríveis. O «Barney» e o «Fred» foram para a pedreira. Em minha opinião, estragaram tudo”, diz, salientando que o Porto parece um descampado. “A calçada portuguesa e os jardins foram substituídos por granito vindo da China, o que não simboliza a arquitectura moderna. Para mim, estas obras são sinónimo de falta de sensibilidade, resultado de uma mera «arquitectura de espectáculo»”, sublinha.
No quotidiano gosta da proximidade com o mar, da praia, adora música, ler, escrever e passear com o seu cão. “Assim, as pessoas vão pensar que eu não gosto é de fazer nada”, brinca. Reininho confessa já não ser um noctívago, apreciando cada vez mais a luz do dia. “Os erros e disparates são para ser feitos nas alturas certas, quando se é jovem. Não há nada mais triste do que um velhinho armado em novo”, ironiza.  
É um apreciador das tradições portuenses, não dispensando a Avenida dos Aliados na noite de São João. Vibra com o futebol e o seu coração é azul e branco. “Tenho pena de não poder assistir a mais jogos mas o trabalho não mo permite”, diz Reininho que tem uma opinião muito própria quanto aos resultados dos jogos. “0-0 deveria significar zero pontos. Um jogo nunca deveria acabar assim. É como sair com uma miúda e no fim nem receber um beijo”.

«Rock in Rio Douro»

Reininho estudou cinema no Conservatório Nacional tendo acabado por abraçar a música como a sua grande paixão. Em 1977 gravou o seu primeiro disco, com Jorge Lima Barreto, no projecto Anar Band. “Não foi fácil. Gravar discos era ainda difícil na época e, sendo nós um grupo de jazz não clássico e muito arrojado, não éramos apetecíveis à indústria”, conta, salientando, no entanto, que esta foi a sua fase de “liberdade histérica”. Em 1979 surge o Grupo Novo Rock (GNR) ao qual se juntou passados dois anos. “Tudo aconteceu devido à proximidade que tinha com o grupo, especialmente com o Alexandre Soares. Reparei neles porque estavam a fazer da música a sua vida, o que é notório e louvável”, garante. Depois de 28 anos, dezenas de discos e uma carreira musical repleta de êxitos, Reininho explica a fórmula do sucesso. “A nossa união é acima de tudo, fruto do respeito mútuo. Já tivemos maus momentos mas as crises e inseguranças também nos fortaleceram”, assegura. Êxitos como «Dunas», «Efectivamente», «Pronúncia do Norte», «Ana Lee», «Vídeo Maria» ou «Pós-Modernos» marcaram e ainda marcam gerações.
A música e a persistência da banda, marcaram o panorama do pop nacional. “Quisemos cantar em português, quebramos barreiras e talvez por isso nos tenhamos afirmado”, refere, lamentando, no entanto, que a língua portuguesa não seja mais universal.
Sempre que pisa um palco confessa que a adrenalina dispara. “Sou irreverente. Cada espectáculo é único, é essa a emoção de subir ao palco, a imprevisibilidade. É o que me mantém vivo”, garante. Não gosta de playback, ao qual só recorre em último caso. Os temas da banda são quase todos escritos por ele mas sempre tendo em conta as opiniões dos outros elementos da banda. Reininho confessa que, inicialmente, quando tocava baixo e guitarra, se considerava “um péssimo músico”. “Até era pintarolas e tinha uns sapatos jeitosos mas isso não era o suficiente para tocar um instrumento”, conta. Companhia das Índias é o seu último trabalho a solo. “Este álbum foi uma experiência extraordinária. Este foi um ano de aprendizagem. Aprendi novos métodos e vi como variados artistas trabalham”. Daqui a 25 anos, o cantor ainda se imagina «em cena» tal como o seu velho amigo Sinatra. “Ainda tenho muita coisa para fazer e muita gente com a qual gostaria de vir a trabalhar. Não me repetir e aprender mais é o que espero do futuro”.

Texto: Marta Almeida Carvalho / Sofia Ferreira
Revista VIVA! – Edição Março 2009

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