Pingo Doce

Rui Veloso

Rui Veloso

“Não interessa onde é que uma pessoa nasce, interessa onde vive e sente”, afirma categoricamente. Assim, à luz da letra de uma das suas canções, “quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar” conhece uma terra que quase se dissolve com o nome Rui Manuel Gaudêncio Veloso, por muitos considerado o “pai do rock português”.

De inspirado a inspirador
Filho de Aureliano Capelo Veloso, ex presidente da Câmara Municipal do Porto, o músico estreou-se nas lides musicais com apenas seis anos, altura em que começou a tocar harmónica. Mais tarde, aos quinze, Rui Veloso descobriu aquela que viria a ser uma das suas maiores paixões – a guitarra – influenciado pelos blues e por nomes como Eric Clapton, Rory Gallagher, Bob Dylan e B.B. King. “Eu vinha agora a ouvir o Rory no carro e, às vezes, as pessoas esquecem-se mas ele foi muito importante, foi uma das minhas referências”, contou, mostrando admiração pelo “sentido de liberdade” que o guitarrista irlandês sempre procurou ter. “Era um homem extraordinário. Comecei a vê-lo, no Infante Sagres, e desmaiei”, afirmou, entre gargalhadas. B.B. King foi outro “dos grandes” que inspirou Rui Veloso. Aliás, nos anos 90, o cantor teve oportunidade de atuar com o guitarrista estado-unidense, num misto de medo, orgulho e emoção. “A primeira vez foi muito assustadora, foi no Casino Estoril”, recordou, explicando que os concertos seguintes, no Coliseu do Porto, “já correram muito bem”, com lotação esgotada.
Dez anos antes de subir ao palco na companhia de B.B. King, Rui Veloso abalou o panorama musical português com o lançamento de “Ar de Rock”, que transformou temas como “Rapariguinha do Shopping”, “Chico Fininho”, “Sei de uma Camponesa” e “Saiu para a Rua” em verdadeiros hinos. “Numa altura em que era muito difícil vender LPs, o “Ar de Rock” vendeu 30 mil”, número que, de acordo com o músico, era “assustador” para o mercado da altura, tendo em conta que se tratava de um trabalho bastante “arriscado e diferente”. “Para um disco como aquele, vender cinco ou seis mil LPs era uma coisa muito boa”, notou o cantor, garantindo que conseguir chegar aos 30 mil foi quase transcendente.
Entretanto, em 1988, surgiu a oportunidade de realizar a primeira grande digressão, composta por 61 concertos. “Foi trabalho, trabalho, trabalho”, confessou, já com o peso das três décadas de carreira refletido no rosto. Hoje, o número de quilómetros que Rui Veloso percorreu para levar a sua música a todo o país é equivalente a “trinta e tal voltas ao mundo”. “Já fiz bastante mais do que um milhão de quilómetros. É por isso que estou mal das costas”, brincou, explicando que o esquema das digressões se resume a “chegar, tocar e ir embora”. “Não se conhece nada nos locais por onde passamos, mas isso faz parte da cartilha do rock’n’roll”, afirmou.
Com mais de dez álbuns editados e muitos prémios na bagagem, Rui Veloso garante que, agora, a sua forma de encarar a música é “a mesma de quando era miúdo”. A liberdade é, assim, algo de que jamais prescindirá. “O artista não tem de ser coartado por uma editora (…) A minha perspetiva sempre foi a de ser um artista absolutamente livre. Nunca recebi sugestões nem aceitaria isso. Para mim seria um insulto, uma desconsideração”, notou, explicando tratar-se de “uma questão de feitio”.

Música portuguesa: um universo “muito bom e muito mau”
Com o olhar pousado sobre o rio Douro, é com nostalgia que Rui Veloso fala de algumas “batalhas difíceis” travadas no passado e que acabaram por melhorar as condições de vida dos músicos portugueses.“Andei a abrir caminho: a tocar em palcos fracos, a servir de cobaia para engenheiros de som que não percebiam nada daquilo”, apontou, acrescentando que, pelo menos durante dez anos, foi “on the road, rock’n’roll”.
Hoje, o “pai do rock português” salienta o trabalho feito pelos artistas nacionais mas continua a defender que a nossa música “ainda é pouco apoiada pelas rádios”. É uma vergonha, ainda não existe uma rádio que passe exclusivamente música portuguesa”, lamentou Rui Veloso, recordando que os artistas tiveram de “mendigar” a quota mínima de 25% de música portuguesa a ser transmitida. Depois, acrescenta, “é muito difícil perceber onde é que se pode comprar música nacional”. “Vejo-me à rasca. Não há lojas de CD’s e quem tem menos possibilidades não consegue colocar os discos à venda na Fnac”, notou. “Por essas e por outras, às vezes, envergonho-me do país que tenho”, desabafou, em tom amargo.

“A política cultural no Porto pura e simplesmente não existe”
Entre as horas passadas em viagem, rumo aos concertos, os dias na casa de Sintra, onde vive, e as “saltadas” até ao Porto, Rui Veloso não deixa de defender que a situação cultural da Invicta “é um desastre”. “Não é única, há muitos casos assim”, afirmou, explicando que denota uma “grande falta de sensibilidade” para o tema.
O músico considera, assim, que Gaia e Matosinhos são cidades bastante mais evoluídas culturalmente do que o Porto. “Gaia não tinha nada quando Luís Filipe Menezes foi para lá”, notou, apontando para a margem gaiense, completamente invadida por pessoas prontas a assistir a uma qualquer procissão repleta de bombos. “O presidente continua lá e nós, aqui sentados, (do lado do Porto) percebemos que em Gaia há animação”, constatou. Na cidade que considera sua, Rui Veloso sente que “a política cultural pura e simplesmente não existe”. “Há uns bares na Baixa, há o Rivoli e a Casa da Música com música clássica e DJ’s”, sintetizou, garantindo andar a lutar já há vários anos por um despertar cultural da Invicta.
O músico surge, assim, como um defensor da fusão entre Porto e Gaia. “Os presidentes das duas autarquias são do mesmo partido e praticamente não se falam. Não se consegue fazer nada em conjunto, o que acaba por funcionar contra a população”, expressou. E para o cantor, a grande mais valia da cidade é, de facto, o povo. “Ser portuense é uma marca que nunca mais sai. É estar em Lisboa há 30 anos e sentir que não há hipóteses”, explicou, com as águas do Douro refletidas nas lentes dos óculos escuros. De acordo com o cantor, o povo portuense é diferente do da capital. “É mais orgulhoso da descendência, da terra, dos clubes, da língua, dos palavrões e da maneira de falar. O portuense tem uma personalidade mais vincada, mas também se engana muito”, disse com boa disposição.

Novo disco gravado em parceria com outros artistas
Apesar de encarar o ano 2011 como “o pior” da sua carreira, devido à crise que está a diminuir em grande escala o número de espetáculos programados, Rui Veloso, “o teimoso”, sabe que ainda há trunfos a jogar. “Estou a acabar de gravar um disco com músicas minhas, daquelas que quase não passaram na rádio”, revelou, adiantando tratar-se de um trabalho feito em parceria com vários músicos, dos quais são exemplo Camané, Luís Represas, Pedro Abrunhosa e Ricardo Ribeiro.
No entanto, o projeto mais imediato que Rui Veloso tem pela frente é “viver”. Alguns anos depois de ter enfrentado um problema de saúde nos intestinos, o músico mantém a garra de quem vence. Apesar de contar com uma carreira de três décadas, acompanhada pela incontornável figura do letrista Carlos Tê, prefere encarar o futuro musical com algum cuidado porque “nunca se sabe quando o fim está perto”. Nos tempos livres, já longe da guitarra, o boavisteiro não prescinde de assistir a um bom par de séries. “Gosto de estar na minha cama o dia inteiro a ver filmes, séries, documentários e concertos. Levantar-me para ir buscar alguma coisinha para comer e ir para a cama outra vez”, revelou, contando ter visto recentemente a série “Shark”, com James Wood, à qual se seguiu a “New Tricks”, “com três polícias já mais velhotes”. “Vícios normais” de alguém que ignora a fama, mas que faz questão de manter sempre viva a alma portuense.

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