Pingo Doce - Alimentação equilibrada

Vítor Baía

Vítor Baía
E como se define Baía enquanto atleta? “Quando penso que ainda sou o jogador com mais títulos conquistados não posso deixar de sorrir e de sentir que todo o esforço, sofrimento e dedicação foram recompensados”, refere, numa espécie de auto-análise. O ex-guarda-redes, que só teve dois clubes no seu percurso – FC Porto e Barcelona – representa, agora, o clube do coração muito além das quatro linhas, factor do qual se orgulha. “O FC Porto é especial. Digo-o como adepto mas também como alguém que viveu por dentro o incrível crescimento dos últimos 20 anos”, refere, salientando que a mística é única. “No FC Porto há uma mística especial. Muitos clubes tentam utilizar esta palavra, mas não sabem sequer o que significa. Aqui conta sempre mais o colectivo que o individual, não se dorme à sombra do sucesso. É uma marca fortíssima e um grupo empresarial organizado”, garante, salientando que, actualmente, no gabinete, defende o clube como o defendeu no relvado. “Já somos os melhores de Portugal e um dos melhores e mais respeitados na Europa, mas ainda temos por onde crescer”, diz, admitindo que também gostou de representar o Barcelona, clube que “partilha alguns princípios” com os «dragões», já que também é “representativo de uma região”.

O homem para além do atleta
O nome de Baía surge inúmeras vezes ligado a acções de solidariedade sobretudo com crianças. “As figuras públicas devem utilizar a imagem e o seu impacto social para ajudar quem necessita”, refere, sublinhando que todos podem ajudar, independentemente da fama ou do nível de vida. “Creio que é obrigação do ser humano ajudar o próximo. Não me sinto mais especial do que aquele cidadão anónimo que ajuda quem precisa, tenho é outros meios para chegar mais longe e ajudar de forma específica”, diz. Por isso criou a Fundação Vítor Baía 99 que “tem feito um trabalho meticuloso”, embora “não possa ajudar todas as instituições e casos isolados”. A Fundação, cujas receitas maioritárias, cerca de 90 por cento, resultam de acordos relativos a direitos de imagem do fundador, encontra-se, a desenvolver um projecto de criação de uma casa de autonomização, procurando parceiros institucionais. Baía adiantou que as negociações se encontram em fase adiantada e que poderá arrancar com dois projectos em duas cidades diferentes, ainda este ano. Todas as acções de solidariedade encara-as como “um dever e uma responsabilidade social” que o realizam e não para prolongar ou reforçar a fama, até porque “são muitas as acções da Fundação que não chegam ao conhecimento público”. Embora sempre tenha ajudado crianças, o lado paternal fê-lo olhar para os seus problemas de forma mais atenta e de dar um contributo no sentido de melhorar a qualidade de vida das que mais necessitam. “Fiquei mais sensível a alguns problemas. Pobreza, doença, racismo e pedofilia são temas graves que podem ser minorados com a ajuda de todos”. Baía acredita que a sua imagem pode ajudar e esse é um “contributo singelo” mas que o deixa “feliz”. Recentemente, o ex-futebolista acarinhou a ideia e associou-se ao projecto «Um lugar pró João», destinado a angariar fundos para a construção da nova unidade pediátrica do Hospital de S.João, sendo rosto da campanha de comunicação do «Joãozinho». “Este foi o resultado de uma relação profícua. Se o meu nome pode ser importante, quanto mais não seja para alegrar os jovens que lá estão, não vejo razão para não o utilizar”, afirma. O facto de ser uma figura pública faz com que as solicitações à volta do seu nome sejam muitas e a exposição inevitável. “Tento dar resposta a todas as solicitações mas é claro que ninguém consegue estar em todo o lado e dizer que sim a tudo. No entanto, o balanço é extremamente positivo já que não há nada que pague o sorriso de uma criança”. Como lida Vítor Baía com a fama e o mediatismo e de que forma a sua família é afectada? “Tento manter a família à margem da ribalta e julgo que o consegui ao longo destes anos. Sei que o profissionalismo, especialmente no mundo mediático do futebol, tem um impacto brutal. Não é fácil lidar com as pessoas e ser simpático depois de uma derrota, por exemplo. Mas nesses dias, que não foram assim tantos na minha carreira, procurei ficar mais por casa”, refere, destacando que “se o futebol tem muitos «prós», este pode ser um dos «contras»”. Mas, diz, sempre viveu com “relativa tranquilidade perante estes fenómenos”.

Taça UEFA foi “especial”
De acordo com Vítor Baía, o facto de ser um dos atletas mais conhecidos mundialmente significa que esteve integrado em grandes equipas e que foi ambicioso, dando sempre o melhor. Ganhou todos os títulos, mas foi a Taça UEFA, em 2003, o que lhe deu mais gozo. “Essa conquista foi especial. Já tinha ganho tudo no país e uma competição europeia no Barcelona, mas um título tão importante pelo clube do coração foi fantástico”, garante. Para Baía, que apontou Artur Jorge e José Mourinho como os treinadores com quem mais gostou de trabalhar, é difícil definir o momento marcante da carreira tendo, no entanto lançado alguns. “Não esqueço a estreia, em Guimarães, o primeiro título, as vitórias internacionais. São tantos que é difícil escolher um só”. Difícil foi também «arrumar as luvas» e o momento da despedida, quando teve um estádio de pé a aplaudi-lo, é recordado com emoção. “São sentimentos inexplicáveis, não os consigo descrever. Foi um «até já» e o início de uma nova etapa. Aquele estádio, a gente, a camisola, o símbolo, é tudo muito forte”.
Terminada uma carreira sem paralelo, nunca equacionou a hipótese de vir a ser treinador. “Identifico-me mais com o cargo de dirigente”, refere, salientando que se encontra a tirar o curso de Gestão do Desporto. O seu nome já foi apontado por muitos como podendo vir a ser o «sucessor» natural de Pinto da Costa, já que é um dos símbolos máximos do clube com a total simpatia da massa adepta. “O presidente é único, basta ver que ninguém consegue fazer melhor e está muito bem no clube. Sinceramente, não sei como será o futuro, ninguém consegue prever”, salienta. Como director das Relações Externas e Expansão do FC Porto, e seu representante internacional, Baía lida de perto com os grandes clubes europeus. O reconhecimento desses «colossos» relativamente ao Porto é notório, até porque o tetracampeão é recordista de presenças na Liga dos Campeões, que venceu por duas vezes, o que, por si só permite perceber o tipo de protagonismo que tem. “Estivemos sempre na linha da frente das discussões sobre futebol, nomeadamente no âmbito do G14 e, mais recentemente, da ECA”. De acordo com Baía, o Porto não é visto como um clube rico, mas antes como “um clube organizado e competente, que domina claramente o panorama interno e dá cartas no externo. De resto, já vários dirigentes elogiaram o nosso crescimento, o estádio, as equipas e a forma como rentabilizamos os activos”, sublinha.

«Portos» de Baía
Vítor Baía mantém uma relação de afecto com o clube e com a cidade. “Nasci na Afurada, vivi muito tempo em Leça da Palmeira e radiquei-me no Porto. Creio que Gaia e Matosinhos são um pouco como «irmãs» da Invicta, onde se pensa e sente da mesma forma. Adoro a cidade e identifico-me com as pessoas”, garante, elegendo a Foz e a Ribeira como locais de referência. De negativo, Baía referiu que nota um “esmorecimento da cidade nos últimos anos”, realçando a massa humana como o melhor que o Porto tem. “Os portuenses são genuínos, trabalhadores, simpáticos, ternos e solidários, muito «terra a terra»”. Questionado sobre se a «personalidade» da Invicta seria masculina ou feminina, Baía consegue detectar um misto de ambas, tendo encontrado algumas semelhanças entre o Porto e Barcelona. “Os catalães partilham princípios semelhantes. Gostei de Barcelona, é uma grande cidade, com gente simpática e agradável. O Barcelona também é uma marca fortíssima, por isso foi uma experiência de vida duplamente agradável”, assegura.

Discurso directo
Um lugar – Porto
Viagem – Ruivães (a aldeia dos meus pais, no Minho)
Livro – Equador
Música – Pride (U2)
Filme inesquecível – Brave Heart e O Gladiador
Projecto inadiável – Nenhum de momento. Vou respondendo aos desafios da vida
Guarda-redes de referência – Mlynarczyk
Figura incontornável da cidade – Jorge Nuno Pinto da Costa
Porto numa só palavra – Único

Texto: Marta Almeida Carvalho
Revista VIVA! – Edição Outubro 2009

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